domingo, 31 de julho de 2011
Confissão
“Meu Deus do céu, não tenho nada a dizer. O som de minha máquina é macio”, disse Clarice Lispector. Eu digo: Meu Deus do céu, tenho muito a dizer. Mas posso dizer?
Tenho medo, insegurança. E fujo. Fujo de mim mesma, dos meus desejos, das minhas possibilidades. O que escrever, sobre o que escrever, por que escrever? Eu amo a palavra, amo sim. É através dela que observo o mundo, que duvido, ou acredito; é através dela que supero e me supero. Mas atrever-me a escrever, a criar? Isso me assusta. Tenho tido sonhos. Muitos sonhos. O mais constante deles é o de que escrevo durante dias seguidos, sem intervalos, escrevo com animalidade como se disso dependesse a minha vida, como se atrás de mim uma pantera esperasse pronta para atacar e eu tivesse de escrever para sobreviver, escapar. Fico confusa com esse sonho e ergo paredes atrás das quais me escondo. Às vezes não durmo, às vezes gosto, às vezes esqueço. A verdade é que quero sem querer, acho que posso achando não poder.
Quando li Cartas a um Jovem Poeta, de Rilke, a já clássica citação “confesse a si mesmo na hora mais tranquila de sua noite: morreria, se lhe fosse vedado escrever?”, passei noites buscando esta confissão em mim, sondando minha mente, meu coração. Não me veio a confissão, ao contrário, me surgiram dúvidas, inquietações, insegurança, raiva. Raiva, esta é a palavra. Uma raiva de querer muito algo, mas não encontrar explicação para querê-lo. Para gostar de algo, supõe-se que se responda por que. Só a criança tem o direito de desejar as coisas sem entendê-las, não? Não?
Mas apesar do medo, da raiva, dos sonhos, da fuga, escrevo. Insisto. Amar a palavra é rendição e eu a amo. Por isso começo aqui o que chamo de “me expor contra minha vontade, mas querendo muito”. Sinto um friozinho na barriga, uma emoção como se pela primeira vez eu pudesse ser o que tanto temo em mim, como se me olhasse num espelho cujo reflexo é exatamente o que eu idealizo. Não sei se encontrarei um dia a razão para isso, talvez ela nem mesmo exista. No entanto, mesmo que eu tente escapar, sempre acabo assim, diante duma tela em branco inventando histórias que nunca se materializam. O mundo que crio é uma ficção. Eu mesma sou pura ficção.
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