quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Conversa à beira da cama

(baseado num diálogo real)
A menina acordou assustada:
─ Mãe, tive um sonho terrível.
─ É filha? E como foi?
─ Não posso contar. Se eu contar, você vai morrer de medo.

As cidades

Deste mistério que são as cidades, talvez ninguém possa entender.
As cidades são corações blindados, multidões mascaradas.
As pessoas são incapazes de se revelar, escondem-se. Choram em porões.
Maiakovski, o poeta que driblou a anatomia, foi todo um coração.
Matou-se com um tiro.
As cidades são dos sapos, não os de Manuel Bandeira, que morreu pobre.
Sapos obesos fartam-se em lagoas onde afogam seus dólares escamoteados.
Pessoas vulgarizam-se e aplaudem o novo líder do BBB.
Aproveitam uma diversão cruel e dormem com a cosciência em paz.
As cidades, à noite, são ocas, casas ressonam, postes fraquejam.
Mendigos adormecem com a mesma fome de quando nasceram.
Há um medo sobre as cidades, há um interstício perigoso entre um bom dia no ônibus
E um até logo depois do almoço. Trabalha-se para comer, pois as cidades exigem
dinheiro. Mas o homem exaurido tem sede. Bebe do próprio suor.
Eu observo as cidades como uma lebre branca com seus olhos vermelhos:
Inquietação e temor.
Tenho medo dessa grandeza das cidades, elas me parecem vazias e
geladas como a ponta de um iceberg.

domingo, 18 de setembro de 2011

Meia volta


Nunca saberia quando ele me falasse a verdade. Há relações construídas sobre a mentira, sobre a desconfiança, relações que estão sempre por um fio, você olha no olho do outro e vê um embaçamento, um vidro sujo através do qual não se pode ver lá dentro. Assim éramos nós. Por isso naquela tarde saí sem sequer olhar para trás, e André sabia que se eu resistisse a virar-me e olhá-lo era porque não tinha volta. Desci a escada passo a passo repetindo em voz alta: não volto, não suporto mentira! Tomei um taxi, mas juro que não fazia ideia do rumo que queria tomar: vire à esquerda, pode seguir, depois entre à direita, não sei, não sei. O taxista me olhava pelo retrovisor e sua cara tinha uma expressão conturbada, de puro conflito: a senhora tá bem?, perguntou o homem abaixando o som que tocava uma música estridente. Bem eu não estava, tinha vontade de pegar o volante e bater com aquele taxi numa parede, num poste. Acendi um cigarro. “Não pode fumar aqui, moça, desculpa”. Apaguei o cigarro. Entre à esquerda, ordenei tirando da bolsa uma agenda velha que sempre carregava comigo. O taxista entrou numa ruela apertada, esburacada: Aqui é contramão, moça. Então volte. Ele voltou, fez uma manobra lenta e pos o carro noutra direção. Sigo? Siga. O homem, embora tentasse disfarçar, não conseguia parar de olhar-me. Sua tez franzia cada vez que eu o flagrava me olhando. Vire à esquerda agora. Vê aquela lojinha ali, a da esquina? Vire à direita ao passarmos por ela. O taxista parecia ainda mais conturbado, sua testa começava a suar, o taxi não tinha ar condicionado: Não repare, moça, deixa o vidro aberto que o ar entra. Não dei nenhuma importância ao que aquele homem dizia, dei de ombros: tanto faz o ar, senhor. O que me irritava era justamente aquela falta de sentido, dele me deixar daquele jeito sem rumo, sem prumo. Ele quem, moça? Ninguém. E agora, devo seguir?, o homem me inquiriu com o olhar, pondo o braço um pouco para trás e reclinando-se. Agora vire à esquerda, depois vá direto, tem uma ponte mais à frente, certo? Não tem? O homem franziu o sobrolho, deu uma buzinada que me assustou e prosseguiu. Minutos depois, novamente interpelou-me: e agora, moça? Agora o senhor vire aqui na próxima esquina, depois siga. O homem freou abruptamente o carro: desça já do meu taxi. Mas senhor... Ele estava irredutível: desça já, e começou a buzinar, furioso. Recolhi a agenda que havia deixado cair no banco, minha bolsa e, perplexa, desci do taxi. O homem arrastou e eu fiquei ali na esquina de pé. Teria eu o atormentado? Atravessei a rua, fui até um orelhão e disquei o número: André? Sou eu, um taxista me expulsou do taxi, não entendi nada. Pode vir me buscar? André gargalhou do outro lado da linha, minutos depois lá estava ele pra me apanhar. Entrei no carro ereta, meio em choque, me perguntando: será que eu atormentei o taxista? 

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

A florista

Talvez seja exagerado dizer que ganho a vida com flores, mas a verdade é que é delas mesmo que vivo. E sobrevivo – haveria diferença? Se você nunca se comoveu diante da beleza de uma flor, talvez ache pouco importante a minha vida. Tenho vendido flores desde os sete anos, quando minha avó me pegou para criar e nos mudamos para uma casinha rústica ao lado do Mercado. Colho, arrumo e as vendo todos os dias. Aprendi desde cedo a lidar com elas. Flores são fáceis, não guardam segredo, têm impulso para fora, querem sempre se abrir. Fatidicamente murcham, que nada neste mundo é perfeito. Mas são amigas fidelíssimas, de fácil comunicação. Como tenho andado melancólica, estou muito próxima dos lírios, estes amantes tristes. Têm vendido bastante, o pessoal acha “refinado”. Quando fico mais alegre, prefiro as amapolas. Elas são poderosas, ai Deus! me fazem sentir tão feminina que tenho vontade de dançar sem roupa na rua. O Godofredo, meu papagaio e companheiro, prefere as margaridas, meninas de varejo, alegres. Antes de sair de casa, ponho Godofredo no meu ombro. Com um pequeno alicate, corto o talo de uma margarida e a encaixo na orelha esquerda, cobrindo um pouco com o cabelo. Godofredo bica a margarida durante toda a manhã até destruí-la, despetalá-la e eu repô-la com outra. Ele nunca está cabisbaixo, sempre feliz, meu amigo querido alimenta-se de pétalas e pólen. Acho que tem algum tipo de complexo pois certa vez o flagrei batendo asas e bicando um girassol com gestos meio forçados, como se imitasse a leveza dum beija-flor. Pobre Godofredo, ama tanto as flores que é capaz de atuar para conquistá-las.Acho que se um dia eu deixasse de ser florista, ele me abandonaria. É, acho que sim. 

Se me perguntassem, “olha, e se você não pudesse mais ser florista?”. Ah! Minha resposta viria cheia de amargura e medo: eu não morreria, mas ficaria tão triste que seria o mesmo que morrer. Minha vida tem sido esse labor, esse cuidado. Faço disto uma vocação. É, aí está a palavra: tenho vocação para as flores. Através delas vejo que o mundo pode existir numa forma, como disse o poeta, insegura mas que é ao mesmo tempo uma espada prateada erguida pela... pela o que mesmo? Ah! pela vida, sim. Mendigos, até os mendigos entendem o que quero dizer, se outro dia mesmo um me sorriu ao receber de mim uma rosa dramática e tão rubra que o hipnotizou. Você, se não gosta ou mesmo já reparou nas flores, ignore, por favor, o que tenho dito aqui. Uma tarde dessas, quando eu e Godofredo saíamos do Mercado carregados de flores e esperança, um homem com um olho de vidro e uma perna manca me parou. Entendam, se vocês não acreditam na redenção que as flores provocam, não continuem a ler minhas palavras. Este homem me parou e estendeu sua mão grossa, parecia um louco. Devia ser. Ele me atacou, agarrou-me pelo pescoço. Godofredo gritou, bateu com desespero suas grossas asas e foi para cima do homem desta vez com a representação de um gavião. A cesta com as flores caiu, eu logo caí também. O homem me pisoteou, chorou, em seguida gargalhou e foi embora mancando. Eu percebi desde o começo que ele era louco. Estremecida com o susto, as pernas trôpegas, acolhi Godofredo de volta ao ombro – ali era seu porto seguro, meu pobre e corajoso amigo – e recolhi as flores para colocá-las de volta na cesta. Vocês talvez achem bobagem isto que contei, este homem louco que me atacou e estas flores no chão. Não sei bem, quis apenas contar. As flores não foram maculadas, estavam intactas na cesta. Godofredo é que teve um pequeno colapso nervoso, coitadinho, pude ouvir seu delicado coração bater freneticamente. Teve medo de me perder e perder o contato diário com as flores. Foi um susto e tanto. Mas ficamos bem. No dia seguinte, além de suas margaridas, pus na orelha também uma flor do campo deliciosa que ele adorou. Passamos o dia no Mercado como de costume. Sabíamos o que aquilo queria dizer.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Amizade

Todos têm um bichinho de estimação. Mesmo que imaginário, ou apenas em forma explícita de desejo, lá no fundinho do coração existe um bichinho de estimação. Eu tive muitos – bichinhos e corações. Amei tantas espécies: periquito, lebre, peixe de aquário. Mas os cães, estes seres cândidos, sempre estiveram comigo. Ainda menina tive como parceira uma cadelinha cujo nome não lembro. Recordo mesmo é sua forma viva, não abstrata. Éramos feitas uma para a outra. Ela compreendia que eu, mesmo nos dias mais tristes, era capaz de amar. Então vinha para mim, funcinhando meus pés com seu fucinho pequenino, roçando sua cabecinha nos meus dedos, me ensinando que amar é ganho e jamais desistindo de mim. Tínhamos momentos raríssimos de infelicidade. Bichos não conhecem a escuridão, por isso onde quer que estejam há luz. Com ela era assim. Havia ocasiões em que eu a punha no colo, a embalava feito uma criança. Mas nos divertíamos mesmo quando eu deitava no chão e, ao som de seus latidos, gargalhava, entrando em contato com o que de mais primitivo há em mim.
Tê-la sempre fora confortável, eu gostava de acariciar aquela forma una e fiel, capaz de, com seu amor incondicional, proteger-me das armadilhas do mundo. Ao lado dela, eu era uma filha querida, não temia tantas coisas como hoje temo. Vivemos muito em pouco tempo. O tempo, aliás, quando se está feliz, é rarefeito. Saíamos à noite, eu observando o luar e ela, sendo cheirada no rabo pelos cachorrinhos, curtia o erotismo que a natureza lhe deu, sem nenhuma vergonha, nojo ou defesa. Se pudéssemos ser sempre assim, alguém com um bichinho de estimação... A vida seria menos grotesca, as cidades menos fantasmagóricas. Cães vivem suas vidas sem ódio, vivem do óbvio, mas jamais do imoral. São rendição, veja o caso do homem que matou seus inimigos, mas não matou o cachorrinho que, amarrado numa corda, magro e sem mágoa, lhe devotou olhos puros.
No dia em que a cadelinha, como uma fita prestes a se romper, encerrou a brincadeira, a menina entendeu que a morte é pretexto para coisa maior. Ali, mortinha, fria, indefesa... enrolei-a numa toalha branca e a pus numa caixa que atirei no rio. Foi como se ela jamais existisse. Hoje amo outros cães, ela já não faz parte, já não corre quando me vê. Amá-la foi como amar a mim mesma. Muito mais misterioso, foi como amar algo.

As coisas e suas palavras

Só as palavras salvam. Digo com a mais inocente esperança de quem busca nos interstícios alguma dignidade. As coisas parecem tristes, quando na verdade tristes são os olhos de quem as vê. As coisas são preenchíveis, para isto existem tantos verbos, todos conjugáveis. Eu amo, tu amas, amas? Nós amamos, nós queremos, nós precisamos. Coisas são inesgotáveis, basta o sopro das palavras para que elas inflem e se tornem mundos, nos quais cabe todo você. Cabemos nós. Acredito muito na teoria das coisas, na teoria das palavras. Palavras significam, muito mais: criam horizontes. Coisas sem palavras são apenas poeira num rio. Sabemos dizer “eu amo”, mas o que valida o amor é a busca por novas formas de dizer eu amo.  Palavras não cabem em si, levam o mundo nas costas. Livros, dicionários, poemas, são ovos túrgidos de esperança nos quais esperam, pulsantes, as palavras-pintinhos. Por isto amai, amigo, as coisas e suas palavras. O mundo é mudo e triste quando faltam palavras.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Tiro ao alvo

Ele sabia que ela podia magoá-lo, sentia na pele sua fúria quando ficava zangada. Mas sabia também que podia vingar-se. Sim, era mesmo isso que desejava sempre que ela o punha de castigo, ou quando lhe apertava os braços, dava beliscões e lhe enchia de sopapos. Como quando ela ordenou que não atravessasse a rua, ela estava mandando: “Mandando ouviu?”. Ele, no impulso de ser contrário à ordem dela, atravessara e, aos gritos, o coração dando aquele pulo – perdê-lo era fácil -, ela correu e o agarrou pela goela: Menino do cão! Era sempre assim: ela precisando castigá-lo.

Desta vez, porém, ela passara dos limites. Além de gritar, xingar e colocá-lo de castigo, ela o humilhara. Colocá-lo de cara contra a parede era fazê-lo perder qualquer indício de masculinidade, um dia seria um homem e jamais esqueceria disso. Nem de longe um amor edipiano. A odiava em certos momentos. Detestava aquela prepotência dela, aquele jeito de mãe, mulher e adulta, aquelas mãos redondas circunscrevendo suas possibilidades, seu espaço, seu direito de agir: “Coma tudo, mocinho”. E quando ele quisesse ir embora, ela deixaria? Um dia sumiria de propósito só para atormentá-la. Claro. Tinha este trunfo vil e que não prescindiria usar contra ela.

 Naquela tarde, os braços avermelhados, resultado de sua anarquia infantil, as lágrimas escorrendo quentes como só escorrem dos olhos de quem sente ódio, ele jurou: “Ainda me vingo dela”. Lembrando-se então de seu trunfo, escondeu-se no canto mais obscuro da casa, no local onde ela jamais o procuraria, sequer lembraria. Ficou lá por horas. A noite caía quando ela, mãe, mulher e adulta, o procurou. Era hora da janta, a sopa dele iria esfriar: Moleque maldito! Perscrutou por toda a casa, quartos, cozinha, jardim, quintal. Nada do filho. Perguntava a si mesma: “Onde diabos ele se meteu?” – ainda pouco preocupada. Ela buscou na vizinhança, ligou para alguns meninotes da escola, o filho podia ter ido brincar. Sentindo o peito apertar, como uma galinha ao olhar em redor e não ver seus pintinhos, a mulher desesperou-se. Como não tinha asas, encolheu os braços e sentou na cadeira da cozinha. Chorava alto, chamava por seu filhinho. O menino, mais camuflado que uma coruja num buraco, ouviu o choro da mãe. Seu coração que antes era rígido, comprazeu-se com a dor da mãe. Ele cedeu. Apareceu, feito mágica, diante da mulher, que estava pálida de medo – coração de mãe é tão frágil, constatou o menino ao vê-la tão supcetível, exposta como um pássaro ao tiro. Ele a abraçou e, dando-lhe beijinhos na testa, jurou jamais fazer aquilo outra vez. 

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Amor clandestino

Como quem carrega algo secreto, proibido, a menina segurava no colo a caixa de papelão que estava lacrada, mas tinha uns buracos que ela mesma fizera com tesoura para “os bichinhos terem ar”. A viagem era rápida, talvez quinze quilômetros, talvez pouco mais. No entanto, estava escrito na plaquinha ao lado do banco do motorista: PROIBIDO ANIMAIS. SUJEITO A DESCER DO VEÍCULO. A menina leu o aviso com medo, mas seu instinto maternal dava-lhe uma ousadia que como menina apenas não poderia ter. Passou pelo motorista, que a olhou bricando sem saber que aquela menininha de cabelos cacheados e tão baixinha era, na verdade, uma dissimulada  carregando nos braços a caixa proibida. A avó, que era gorda e tão boa quanto uma gata siamesa, sentou-se ao lado dela e pediu que fosse discreta: “Se o motorista nos pega, atira os bichinhos pela janela”. Ela ouviu as palavras da avó com angústia, não poderia perder os filhotes, eram dela, sentia como nunca sentira antes que eles lhe pertenciam e sem eles ficaria tão triste que morreria. “Oh, vovó!”. Uma lágrima escorreu curta pelo canto de um de seus mínimos olhos. Pos a caixa debaixo dos pés, tirou da bolsa uma manta e a cobriu.

O motorista deu a partida, a viagem começou. Pela janela, paisagens campestres, mato, árvores, vento, cheiros. O motorista freou abruptamente. “Meu Deus! Ele descobriu tudo”, pensou a menina, o coração gelado de medo, já temendo perder os filhotes, morrer de tristeza sem eles. Mas era apenas uma aranha que atravessava a pista, tranquila e sutil, sem nenhum ódio ou tédio, como são as aranhas. Sem importar-se com a calamidade humana ela atravessava, seguindo seu caminho, sua rotina. O motorista levou um susto, deu novamente partida no ônibus e emendou a contar seus traumas com aranhas. “Bichos do diabo”, ele dizia, gesticulando e falando alto. Os passageiros pareciam inquietos, conversavam, comiam. A menina era puro medo. Enquanto a avó cochilava, ela vigiava os filhotes, observava o motorista: “Deus queira que ele continue assim distraído”, clamava. 

Quase metade do caminho e a caixa começava a mexer. Latidos finos, contínuos. A menina arrepiou, num desespero súbito pos a mochila sobre a caixa para abafar o som. Em vão. Os filhotes haviam dormido todo o tempo e agora queriam comunicar-se – mesmo os que pouco tempo de vida têm, necessitam deste contato que dar-se de dentro para fora: estariam eles com fome?, perguntou-se a menina. Ela então abriu rapidamente a caixa, sussurrou algo como “xiiii” para que os filhotes ficassem quietos. Em vão. Os latidos ganhavam força, embora finos, eram estridentes. A menina estava agora no ápice de seu desespero, de seu medo, de sua carência. Tão pequena e impotente, nada poderia fazer se o motorista, que no ônibus era a lei, quisesse jogar pela janela os filhotes. “Não, não”, lamentava a pobre menina, nada mais que uma criança. 

De tudo ela tentava. Pos a caixa no colo e tentou embalar os filhotes, talvez voltassem a dormir. Em vão. Ainda latiam. Já em lágrimas, em contato com o mais primitivo dos sofrimentos, ela cutucou a avó. “Acorda,vó, acorda!”. A mulher despertou e, percebendo as lágrimas no rosto da neta e dando-se conta dos latidos dos filhotes, gargalhou: “Calma, querida. Ninguém vai tirar os bichinhos de você”. A menina fez uma expressão meio estática, quase como se não acreditasse que jamais lhe tirariam seus filhotes. Sorriu desconfiada, mas muito alegre e aliviada. A mulher, jocosa como só as avós são, alertou para que a menina pusesse a caixa debaixo dos pés. “Não deixe ninguém ver. Se o motorista escuta, atira os bichinhos pela janela”. A menina assentiu com a cabeça e, abrindo de leve a tampa da caixa, sussurrou para os filhotes que já não latiam, minúsculos, lá dentro: “Xiiiii, meus amores” – mesmo com tanto medo não podia deixar de amá-los e era inevitável não sentir o coração aquecer olhando aqueles miudinhos existirem cheios de esperança naquela caixa. 

A menina pos os pés sobre a caixa, segurando com a mão o lado esquerdo do peito que tamborilava desesperado. Ainda que tivesse de passar por toda aquela angústia, ela não desistiria de proteger o que era seu, aqueles a quem irremediavelmente amava. 





                                                                   

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Presente de casamento


Era como se eu sonhasse. “Natália”, a voz dela me chamava e eu, que não dormira quase nada, ansiosa pelo casamento, a igreja, a festa, a lua de mel – tantas coisas para uma só cabeça pensar – despertei um pouco perdida, as mãos estremecidas: “Fátima? Ah, Fatinha então você me acorda assim?”. Minha voz estava ainda entorpecida, meio rouca, “Pega o hobby pra mim, por favor, Fatinha”. Eu sorri ainda pensando no casamento, os lábios tremendo de vez em quando. Ela sabia que quando eu ficava ansiosa meus lábios tremiam, eu nunca pude esconder. “Parece uma debutante”, ela disse entregando-me o hobby, que deslizou de suas mãos sobre mim, me aquecendo como um abraço.

Espreguicei-me, agora estava de fato acordada. Limpei a remela do olho, o muco do meu nariz, as noites andavam frias, um gelo só. “Vê como fica essa droga de nariz, Fatinha? Pega uma aspirina na gaveta do banheiro pra mim, pega”. Ela, que estava sentada, suas pernas roliças e rosadas cruzadas, o rosto vivo como uma romã – aliás, vivíssimo – levantou-se e pegou a aspirina, que nem mesmo cheguei a tomar. “Me diga, Fatinha, você viu quantos presentes? Mamãe ficou doidinha. Parece que a Dona Amélia me deu uma máquina de fazer chantilly importada, o filho dela trouxe lá dos Estados Unidos. Que diabos vou fazer com isso, me diz”. Fátima levantou-se, os braços cruzados, andando de um lado a outro do quarto, perscrutando, analisando, verificando os porta-retratos, mexendo num objeto aqui, arrumando outro ali. “Seu pai vem?”, perguntou-me, abrindo uma velha caixinha de múscia que ela mesma me dera quando eu tinha sabe-se lá Deus quantos anos, nem tocava mais a musiquinha. “Meu pai? Você sabe como ele é, Fatinha”, respondi, levantando da cama, “Ele disse que não entra em igreja católica de jeito nenhum, depois que virou crente tudo que não seja como é lá na igreja dele é coisa do diabo. Você tinha de ver como ficou quando descobriu que o pai do André é espírita, por pouco não amaldiçoou nosso casamento”. Fátima sorriu, o som de sua risada era tranquilo mas me agitava, me deixava alegre. “Então sua mãe é quem vai entrar com você, certamente”. “Sim, sim”, respondi enquanto abria o cortinado para iluminar o quarto, “Até tingiu o cabelo de loiro, não viu? Ah, você tem de ver, ficou engraçada”. Fátima meneava a cabeça afirmativamente, seus olhos esbugalhados por natureza percorriam o quarto, às vezes vinham em minha direção como se me quisessem. “Ah, Fatinha não me olhe assim”, “Assim como?”, ela perguntou debochando, “Parece que vai me engolir”. Gargalhamos juntas. Eu estava eufórica – esta é a palavra. Tão eufórica que saltitava pelo quarto sem saber bem o que fazer, como se minha alma tivesse se desdobrado, como se eu tocasse tudo ao meu redor dominada por uma alegria que me expandia. “É felicidade”, ela disse, me olhando satisfeita com aqueles braços cruzados.

Eu precisava de um banho, depois arrumar a cara, um pó, um batom, sei lá. “Que cara desprezível, heim Fatinha. Até pareço um espantalho. Assim o André não casa comigo”, brinquei diante do espelho. Fátima aproximou-se de mim, senti um frio ao redor. Olhando-a pelo espelho, eu disse: “Você vai me ver na igreja, não vai? Me criou desde menina, não admito suas vergonhas dessa vez, arre! Já basta no dia do balé, fiquei danada com você, Fatinha. Aquele recital era pra você, fiquei danada”. Fátima ergueu uma das mãos, tocou-me o ombro com tanta delicadeza que quase não pude sentir. Através do espelho ela me olhou, agora parecia pálida, a pele não lembrava em nada uma romã. Os lábios estavam roxos, os cabelos espessos, quase sumindo, um cheiro de flor invadiu o quarto. Com a voz fraca, ela disse: “Eu não posso ir ao seu casamento, Natália, eu tô morta, lembra?”. Era como se eu sonhasse. Não havia explicação a não ser esta. Alguns instantes e ela sequer acenou, foi sumindo, me deixando outra vez e aquele cheiro de flor, de vela, de defunto. Eu estava imóvel, completamente perdida. Era eu ali? Tão frágil. Ela estava morta. Eu ia me casar. Mas não foi sonho. Embora a memória às vezes nos engane, seria uma peça cruel fingir que a vi sem tê-la visto. Não, eu a vi sim, era ela, só que morta. Morta mesmo. Meus lábios estremeceram. Não de ansiedade. De medo.