quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Aula de dança

Ela cruzava as pernas como uma menina virgem, um pouco acanhada – sentia-se velha demais para aquela exposição. Na bolsa, o par de sapatos de couro inglês que a filha lhe dera de presente especialmente para as aulas. Estava orgulhosa da mãe, aliás, todos da família estavam: “A vovó é uma garotona”, brincava o neto mais velho. Ela, que naquela tarde estava quase desistindo, lembrou de como todos foram generosos. Na turma de vinte alunos, era a mais tímida. Ficava ali sentadinha, fingindo arrumar a barra da saia enquanto a jovem professora sacudia-se pelo salão.
― Vem, Dora, dizia a professora.
Dora levantava-se, tirava as alpercatas de tira com aquela paciência de mulher vivida, punha a meia-calça que grudava em suas grossas varizes, colocava os sapatos de couro inglês e, arrumando os curtos cabelos atrás da orelha, ia discretamente até o meio do salão. Seu andar era compactado, os saltos tamborilavam no piso. A música era alta, agitada, um ritmo caribenho contagiante. Todos remexiam-se, alguns com técnica, outros divertindo-se como se o mundo fosse pura festa. Dora estava contraída, ali parada no meio sem saber bem o que fazer. A jovem e simpática professora lhe segurava os quadris e falava numa língua enrolada: “Así, Dorita, así”. Dora tentava desvencilhar-se, talvez a dança não fosse para ela. Lembrava de como sua mãe sempre fora uma bela dançarina e seu pai um verdadeiro pé de valsa. Ah! Se fosse jovem, pensava, talvez arriscasse, mas agora. “Ahora sí, Dorita”, dizia a professora sem perder o ânimo.
Diante dum imenso espelho, toda a turma ensaiava alguns passos. Dora tinha vergonha desse momento, “tantas rugas”, sussurrava para si mesma enquanto buscava no reflexo um resquício de mocidade, qualquer traço que lhe dissesse: ainda és jovem, mulher. Mas ao tocar-se, sentia os riscos na pele caída, o formato de seu rosto modificado, juventude e desejo desmoronados. Abatida, era como uma ave velha cujas penas já não enfeitam e cujas asas já não servem para voar. Afastava-se e ia sentar-se. Ali, num canto escondido do salão, ela observava os sapatos tão brilhantes que a filha polira com verdadeiro carinho para que ela pudesse “arrasar” nas aulas. Sentia uma lágrima quente, o coração contraía com algum medo. Era melhor deixar as coisas como estavam. Deixaria de ir às aulas, poderia muito bem continuar como professora aposentada que esquece quase todas as noites o remédio da pressão. Estava bem assim. Enfadada às vezes, é verdade, mas sem muito risco. Sapatear, saltitar num salão ao som de uma música caribenha era demais. Talvez o falecido jamais a perdoasse. Viver àquela altura e com a espontaneidade a qual só as crianças têm acesso poderia ser-lhe uma sentença total.
 Observando a aula prosseguir, Dora tirava os brilhantes sapatos, prendia com um grampo o cabelo. Já levantando-se, disposta a ir e não retornar, esbarrou num senhor que acabava de chegar. Ele era um homem bonito, tinha braços fortes, uma tez corada. Dora receou o olhar, mas ao perceber que tratava-se de um belo homem, não resistiu e o mirou por um instante. O homem, simpático e galanteador, logo apresentou-se à ela.
― Amador, com a sua graça.
Ela, fazendo um gesto tímido com o pescoço, olhou para o salão e, sem fitá-lo, apresentou-se: “Dora, prazer”. Dança aqui faz tempo, ele perguntou. Não, não. Na verdade, hoje é meu último dia. O homem ergueu os braços, gracejou um pouco e logo estavam sentados um ao lado do outro. Dora com sua bolsa e sapatos no colo e o homem balançando a perna direita seguindo o ritmo da música.
― Então a senhora vai mesmo largar as aulas?
― Ah, sim. Isso aqui não é muito pra mim.
Ambos ficaram em silêncio um instante. Aquele silêncio que brota apenas dos corações ainda não conhecidos. O homem sibilou, balançou a cabeça e, com a ingenuidade e charme de um menino, tocou a mão de Dora, que sentiu o peito arrepiar como há mais de cinquenta anos não sentia. O homem levantou-se e, remexendo, foi até o meio do salão. Dora respirou fundo, os lábios tremendo, a mão gelada. Um erotismo fulminante a dominava, algum tipo de beleza fatal, algo nela latejava. Calçou com calma um sapato. Depois o outro. Passou a mão sobre o joelho, a meia-calça um pouco desfiada, e, com seu andar inseguro, foi até o meio do salão, aproximou-se do homem que lhe estendia os braços, jocoso. A música caribenha tocava e ela parecia perdida, sem saber bem o que fazer. 

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

A manicure

Todos os sábados nos enfrentávamos. Ela me olhava com uma amargura inexorável, seus olhos pequenos miravam-me como se quisessem me balear. Sempre que ela me via entrar, contraía os lábios, enrijecia a testa. A dona do salão era uma mulher agradável, tratava as clientes como a amigas. Eu entrava, sentava-me numa cadeira de couro preta e já tirava as sandálias. A dona do salão sabia de cor: Mão e pé, heim? Sim, sim, eu respondia com ar desgastado, um sorriso temeroso. Sabia o que me esperava. A dona do salão a chamava: Depressa para não embirrar a cliente, menina. Ela então vinha com sua maleta e sua cólera dissimulada. Eu procurava esboçar gestos humildes, ser o mais agradável possível, embora evitasse dirigir-lhe muitas palavras. “Hoje está bem quente”, eu dizia. Ela, com uma frieza que beirava à desumanidade, fingia não me ouvir, “Hã?”. O tempo, eu continuava, está quente. Ela era seca. Punha meu pé sobre seus joelhos, as mãos de molho na água. “Sua cutícula é muito fina”, ela dizia, como se eu fosse um rato asqueroso a quem ela tinha repulsa. Seu modo de falar era arrogante, eu percebia pelo gesto que fazia com a boca, sempre fazendo um muxoxo. Ela manuseava o alicate com precisão, era boa em seu oficío. Minhas mãos suavam, os pés gelados oferecidos a ela que parecia querer-me morta. Meu sentimento era quase de submissão. Aquele momento em que ela me tinha ali, disponível até as cutículas, era-me uma verdadeira tortura. Ela me detestava, disso eu sabia, mas vê-la aos meus pés, dava-me medo. E se eu tentasse ser sua amiga? Não, não. Impossível. Ela já havia deixado claro: ergueu aquele muro de tensão e hipocrisia entre nós, duas hipócritas. E se eu mudasse de salão? Resolveria facilmente o meu problema. Jamais teria de vê-la. Não, ela era muito boa em seu ofício. Por sua causa eu tinha unhas belíssimas. E se eu perguntasse qual era o problema dela comigo? Talvez eu tenha dito algo, ou agido, sem perceber, de alguma forma execrável. Mas não. Eu sempre fora cordial, sempre. Subjugá-la também não explicaria seu ódio. Ser manicure lhe era sinônimo de ignomínia?  O fato é que eu não entendia. Enquanto ela fazia minhas unhas, eu me perguntava como ela podia repudiar-me tanto. Com um gesto explícito, ela erguia a mão com o alicate: Vai pintar com qual cor? Eu, que sempre adorei os tons mais fortes, queria a opinião dela, tão importante para mim: O que você sugere?, eu perguntava. E ela, com a mesma frieza, respondia: Vermelho fica bem em você. Eu sorria, tomada por uma alegria quase incontrolável, tinha vontade de beijá-la na boca. Mas logo percebia o modo como me tratava, a distância. Ela me fazia sentir oca. Que direito ela tinha de me aniquilar daquele modo? Ah! Às vezes eu queria espancá-la: Olha aqui, não sou melhor que você tá? E você me deve amizade, tá ouvindo? Delírio meu apenas. Jamais teria coragem de tocar na ferida, de apontar o oculto. Ela terminava seu serviço. Cortava, lixava e pintava as minhas unhas, sempre com perfeição. Eu recolhia os pés, com muito cuidado retirava o dinheiro da carteira. Ela arrumava sua maleta, guardava seus utensílios. Eu voltava para casa, sem esperar dela o que quer que fosse. Na semana seguinte eu voltava. A mesma tensão. O mesmo desespero. Eu nunca tive coragem de lhe perguntar: por que me odeia tanto? A resposta seria difícil demais.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Um assassinato justificado

Nos encontramos por acaso. Ele voou em minha direção, pousou no meu ombro esquerdo e foi tudo que bastou. Desde então, não nos separamos. Eu o adotei como uma espécie de filho, uma outra parte de mim que me encontrou. Nunca dei-lhe um nome. Tentei chamá-lo de João, de Aquiles, de Deus. Mas nenhum nome lhe caía bem, nenhum nome o definia. Então passei a chamá-lo apenas de “meu pequeno”. Ele parecia gostar de ser chamado assim. No meu minúsculo apartamento, dividíamos uma vida da mais íntima amizade, sempre compactuando, nunca fingindo. Ele era um pássaro excessivamente delicado, tinha umas asinhas marrons com uns riscos que brilhavam no escuro, parecendo cristal. Às vezes, durante a madrugada, eu acordava zonza e lá estava ele sobre a janela, asas abertas, refletindo a lua ou  voando ao redor da lâmpada, um menino brincando. Seu bico, ah! tão frágil, eu mal podia sentir quando me beliscava os dedos, era como uma agulhinha me injetando amor. Não parecia ter qualquer força nele, até para amar era suave.

Todas as manhãs íamos para nossa caminhada. Assim que eu acordava, a primeira coisa que via era aquela figura humilde sobre meu peito, bicando no lado esquerdo. Eu sorria, pondo de leve o dedo na sua cabeça marrom. Ele beliscava minha unha e eu queria chorar: nosso primeiro contato era fundido nesta bondade imperfeita, uma pureza a lapidar-se - ou não seria possível? Eu levantava, lavava o rosto com água fria e oferecia-lhe o dedo. Ele aceitava e confiavava-me a responsabilidade de conduzi-lo – sabíamos ambos que era mesmo ele que me conduzia. No bairro, nossa amizade já era conhecida: Lá vai a mãe com seu filhinho, diziam ao ver-nos passar, ele sempre no meu ombro esquerdo, beliscando minha orelha. Não cantava, pobrezinho. Desde a primeira vez, nunca o ouvi. Ensaiei com ele durante algum tempo. Assobiava para que ele imitasse. Em vão. Era mudo. Mudo como um abismo. Mas nem por isso deixava de ser aquela criatura alegre e que alegrava meus dias. Não lembro, de verdade, um único dia em que eu estivesse triste ao seu lado. E, se ficasse, ele roçava suas asas na minha mão, voava dum lado a outro do apartamento, e eu ia junto como se asas nascessem em minhas costas.

Aquela manhã, por qualquer motivo estúpido, ele não me acordara. Abri os olhos com dificuldade e ele não estava diante de mim. Aturdida, a cabeça sonolenta, andei pelo corredor vagueando o olhar. Onde ele estaria? Eu me perguntava aonde teria ido o meu pequeno: Psiu! Meu pequeno, onde você está? Sem vê-lo, andando vagarosamnete pelo curto corredor, senti meu pé esmagar algo. Era ele. Que sensação terrível, meu Deus! E que medo. Senti sua carne macia sendo esmigalhada por meu pé. Gelei. Mal tive coragem de olhar. Havia sangue saindo de seu bico, os olhinhos esbugalhados, seu coraçãozinho saindo pela boca... as asinhas quebradas. Cobri o rosto com as mãos e, como se fora atingida por um veneno, aos poucos ajoelhei-me diante dele. Demorou até eu perceber o que havia acontecido – o que eu havia feito. Como podia ser tão perecível nossa amizade? Bastava uma distração, um não-querer? Meu pé estava imerso no sangue do meu pequeno. Não chorei. Uma opacidade tomou meu coração e fiquei ali estática, as artérias pulsando cheias de terror, ainda em choque. Até que peguei uma sacola plástica, o pus dentro e joguei na lixeira. Eu me senti meio perdida, como antes de conhecê-lo, pior. Eu deveria ser castigada? Deveria, sim. O que fiz foi imperdoável. Havia a culpa. Havia mais o medo, aquela estupidez e eu tão vulnerável. Psiu! Meu pequeno, foi sem querer viu?

No apartamento apertado, meu corpo comprimiu-se. Abri janelas, portas. Hoje coleciono alguns pássaros, todos em gaiolas que aprendi a lição, embora até hoje não consiga entender droga nenhuma do que aconteceu.