terça-feira, 3 de abril de 2012

O sonho de Marieta

Ela tinha trinta anos. Fazia aniversário no dia quinze de abril. Todo ano costumava passar o dia no teatro da cidade, desde menininha queria ser atriz, usar perucas, estar no palco vivendo a vida de um alguém abstrato. Mas aquele ano certamente na iria, a nova patroa era uma mulher dura, inexorável, quase impossível dar-lhe uma folga mesmo sendo seu aniversário, ainda mais às terças, dia de ir ao mercado, arrumar as compras, temperar os frangos da semana, lavar os banheiros do andar de cima.

“Talvez se eu deixar tudo arrumado na segunda”, tartamudeou, trêmula, enquanto falava com a patroa que, ríspida como era, negou:

“Segunda é dia de levar a Milu ao veterinário, e tem a roupa pra lavar também. Você já arrumou as camisas do Otávio? Pedi isso a você na semana passada”.

É, realmente não iria ao teatro na terça. Pensou então em adiantar, talvez pudesse ir no domingo. Era seu único dia de folga, comemoraria no domingo então. Mas não, aos domingos era dia de peça e teria de pagar para entrar. Não tinha dinheiro extra para essas regalias. Ia mesmo era nos dias de ensaio, durante a semana, era de graça, deixavam-na olhar. Ficava lá na primeira fileira, o teatro vazio, os olhos brilhavam, úmidos. Mal podia controlar o ritmo frenético de seu coração frágil ao ouvir os atores declamando, movimentando-se no palco. “E se eu disser que estou doente?”.

“É que apareceu um caroço aqui, Dona Lucy, o médico disse que tenho que repousar”.

“Quanto tempo?”, perguntou impaciente a patroa.

“Coisa de um dia.”

“Precisa trazer atestado. Sabe como é o Otávio, muito rígido”.

Estava mesmo difícil. Provar como, se não havia ido a médico algum?

“Deixa pra lá, dona Lucy. Acho que sarou”.

Trinta e um anos faria sem ver seu sonho no palco do teatro. Àquela hora sentia falta de Dona Vera, aquela sim era patroa boa, mulher complacente, caridosa, amiga. Lembrava do carinho com que Dona Vera falava quando ela lhe pedia para ir ao teatro.

“Marieta, você ainda vai ser uma grande atriz”.

Como era doce a lembrança de tais palavras. Via-se linda em cima do palco, o texto decorado e ganhando vida, a plateia alucinada, aclamando-a. Podia sentir uma estrela coruscante no peito só de imaginar-se... atuando.

“Ah, Dona Vera, a senhora acha mesmo?”

“Sim, sim. Você vai ser tão linda no palco quanto a Tônia Carrero. As pessoas vão fazer filas nos teatros para ver você. Marieta, a grande dama do teatro” – Dona Vera fazia um gesto com as mãos e sorria.

Era impossível não ser atriz ao relembrar Dona Vera falando, tinha de ser atriz. Estava decidida, sentia aquilo nas vísceras. Iria ao ensaio na terça, pediria para fazer um teste, qualquer papel, até de cadeira. Tudo valia para começar. Mas e o emprego? E Dona Lucy? A mulher ficaria enervadíssima, e as compras, os frangos? Que vida estúpida! pensou. Por que Dona Vera teve de mudar-se para o Paraná deixando-a na casa dessa mulher tão cretina e incompreensiva? Justo Dona Vera que era sua madrinha de coração, sua grande fã. “Como a vida é injusta!”, lamentava.

Às vésperas de completar trinta e um anos, enquanto limpava os porta-retratos da sala de estar, ela, quase sem perceber, encenou, usando a flanela, uma cena de amor com o enorme espelho que ficava atrás da porta de entrada. Tinha movimentos suaves, o corpo deslizava pelo ar, os pés bailavam nos tapetes. Era uma atriz, repetia consigo mesma, “Sou uma atriz, sou uma atriz, sou uma atriz”. Havia o sonho, a liberdade, o desejo... Decidiu ligar para Dona Vera, tinham esse contato de vez em quando, a antiga patroa, tão carinhosa que era, havia lhe deixado o número do novo telefone.

“Ah, Marieta, é você?! E então, já virou atriz?”

“Nada, nada”, murmurou Marieta do outro lado da linha, “A senhora sabe bem, a nova patroa é meio azeda”.

“Mas e as aulas de teatro? Você não disse que ia tomar coragem e começar, criatura?”
“Nada, nada. Querer eu até queria, mas a senhora bem sabe”.

“Ah, Marieta, o que eu sei é que você vai ser uma grande atriz. Se você trabalhasse comigo, ia era fazer aula de teatro”.

Ao ouvir estas palavras, o coração de Marieta encheu-se duma esperança arrebatadora, “Jura, Dona Vera?”, “Sim, sim”, respondeu a mulher.

As duas ficaram uns instantes de conversa, quando houve um grito de Dona Lucy ordenando que Marieta fosse à cozinha arrumar os frangos. Sentiu, naquele momento, uma pontinha de tristeza, que era antes saudade de ser o que queria. Olhou no espelho, o olhar embaçou e ela repetiu com toda a força que seu coração possuísse “Sou uma atriz, sou uma atriz”. E foi temperar os frangos.