quinta-feira, 24 de novembro de 2011

A mãe

O menino escondeu-se o mais rápido que pode. Achou um canto escuro, úmido, um cheiro de mijo e medo. Encolheu as pernas e soltou a respiração que vinha prendendo nos pulmões. Por toda a casa o procuravam. Refugiado em seu esconderijo, ele podia ouvir, de longe mas igualmente pujante, a voz da mãe gritando: “Eu mato você, eu mato ouviu?”. Sentia as mãos gelarem, o coração gelando junto, os pés imóveis, os lábios tremendo. E a cabeça que desde cedo doía. Se a mãe o encontrasse, estava perdido. Ela era uma mulher de pouca paciência e incontrolavelmente passional. Quando sentia cólera, seria realmente capaz de matar alguém, inclusive ele, seu próprio filho. O menino fitava ao redor, no curto espaço em que se protegia, era um bicho acuado, seu hálito exalava ainda a bala de hortelã que chupara instantes antes de cometer o crime. Crime? Então poderia ele ser um criminoso à espera de um amargo e terrível castigo? Aprendera desde sempre, na escolda dominical, sobre o perdão. Mas o que conhecia na prática era a dureza dos punhos de sua mãe e a indiferença do pai. Nos dias de surras, enquanto a mãe tinha o cinto à mão, ele recorria ao pai, que o ignorava.

Passaram-se horas, ele desejava que o coração da mãe tivesse abrandado, afinal é como dizem “coração de mãe...”. Porém, ao passo que o tempo passava, a voz dela parecia mais próxima, ele podia quase sentir o cheiro de sua pele grossa e oleosa, o som de seu cabelo quando ela se movia depressa. Então seu coração disparava, o peito dava aquele aperto: não queria morrer, tinha medo, estava assustado, como só ficara no enterro do avô, seu melhor amigo. Sabia que bastava ser pego. Começou a rezar. Acreditava em anjo da guarda, em santo protetor, em espíritos do bem. Fez promessa, jurou entregar a alma a Deus, prometeu nunca mais caçoar da professora, estudaria muito a partir de então, seria o primeiro da turma, não roubaria mais a prova de matemática.   Enquanto, de mãos cruzadas sobre o peito, fazia promessas que jamais iria cumprir, sentiu a mãe aproximar-se. Veio à memória imediatamente a última surra, as marcas da fivela perfeitamente marcada em sua coxa. Houve desespero. O menino afligiu-se de uma forma que suas veias do pescoço incharam. Ele agarrou a própria goela, apertou-a. Sufocado, desistiu. Matar-se não seria melhor que apanhar dela. Deveria haver outro jeito de fugir, escapar. Mas pela proximidade do som daquela voz inconcussa, seria inútil. Ele a sentia perto, tão perto quanto na época em que ela o tinha embalado no colo. Começou a chorar. As lágrimas lhe escorriam pelo rosto, molhando o pescoço, a gola da camisa. Era um choro incontido, com intervenção de alguns soluços interrompidos. Foi quando, ao erguer os olhos, o menino viu diante de si uma cara áspera, de sobrancelhas grossas e franzida de cólera. A mãe então agarrou-o pelos cacheados cabelos, arrastou-o para fora da cama e com uma violência misteriosa estapeou o menino. Sopapos estalaram, as bochechas envermelharam imediatamente, as lágrimas secaram. O menino gritava, pedia perdão com o clamor de quem cometera terrível crime: Não faço mais, dizia gritando. Não adiantava. Ele sabia. Passara por aquilo tantas outras vezes. Mas cada vez era pior, doía mais seu coração, ele tinha menos vontade de perdoar depois. A mãe então o largou, deixou a marca de seus dedos estampados na cara do menino como uma tatuagem em alto relevo. Ele sentiu a cara arder, o nariz escorrendo muco, soluços vindo. Quando ela saiu, ele chorou. Desta vez um choro manso, cheio desamparo. Já não sentia medo. Agora o sentimento era indizível, sentia um gosto de leite amargo na boca. Talvez a odiasse. Num ato de revolta, jurou não perdoá-la: “Mãe não presta, tomara que ela morra”, esbravejou, atirando longe o retrato com a foto dela.

No dia seguinte, durante o café da manhã, ele estava disposto a mostrar o quão magoado estava, queria castigá-la como ela o castigou. “Coma tudo. Não quero ver sobrar nada nesse prato, entendeu?”, disse a mãe, pondo diante dele um prato cheio de mingau. Ele a olhou e quis estapeá-la, estava fervendo de ódio. Mas o modo como ela disse “coma tudo”, foi tão doce que ele se enterneceu e disse: Mãe, eu amo você. E pos uma colher de mingau na boca. 

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Aula de dança

Ela cruzava as pernas como uma menina virgem, um pouco acanhada – sentia-se velha demais para aquela exposição. Na bolsa, o par de sapatos de couro inglês que a filha lhe dera de presente especialmente para as aulas. Estava orgulhosa da mãe, aliás, todos da família estavam: “A vovó é uma garotona”, brincava o neto mais velho. Ela, que naquela tarde estava quase desistindo, lembrou de como todos foram generosos. Na turma de vinte alunos, era a mais tímida. Ficava ali sentadinha, fingindo arrumar a barra da saia enquanto a jovem professora sacudia-se pelo salão.
― Vem, Dora, dizia a professora.
Dora levantava-se, tirava as alpercatas de tira com aquela paciência de mulher vivida, punha a meia-calça que grudava em suas grossas varizes, colocava os sapatos de couro inglês e, arrumando os curtos cabelos atrás da orelha, ia discretamente até o meio do salão. Seu andar era compactado, os saltos tamborilavam no piso. A música era alta, agitada, um ritmo caribenho contagiante. Todos remexiam-se, alguns com técnica, outros divertindo-se como se o mundo fosse pura festa. Dora estava contraída, ali parada no meio sem saber bem o que fazer. A jovem e simpática professora lhe segurava os quadris e falava numa língua enrolada: “Así, Dorita, así”. Dora tentava desvencilhar-se, talvez a dança não fosse para ela. Lembrava de como sua mãe sempre fora uma bela dançarina e seu pai um verdadeiro pé de valsa. Ah! Se fosse jovem, pensava, talvez arriscasse, mas agora. “Ahora sí, Dorita”, dizia a professora sem perder o ânimo.
Diante dum imenso espelho, toda a turma ensaiava alguns passos. Dora tinha vergonha desse momento, “tantas rugas”, sussurrava para si mesma enquanto buscava no reflexo um resquício de mocidade, qualquer traço que lhe dissesse: ainda és jovem, mulher. Mas ao tocar-se, sentia os riscos na pele caída, o formato de seu rosto modificado, juventude e desejo desmoronados. Abatida, era como uma ave velha cujas penas já não enfeitam e cujas asas já não servem para voar. Afastava-se e ia sentar-se. Ali, num canto escondido do salão, ela observava os sapatos tão brilhantes que a filha polira com verdadeiro carinho para que ela pudesse “arrasar” nas aulas. Sentia uma lágrima quente, o coração contraía com algum medo. Era melhor deixar as coisas como estavam. Deixaria de ir às aulas, poderia muito bem continuar como professora aposentada que esquece quase todas as noites o remédio da pressão. Estava bem assim. Enfadada às vezes, é verdade, mas sem muito risco. Sapatear, saltitar num salão ao som de uma música caribenha era demais. Talvez o falecido jamais a perdoasse. Viver àquela altura e com a espontaneidade a qual só as crianças têm acesso poderia ser-lhe uma sentença total.
 Observando a aula prosseguir, Dora tirava os brilhantes sapatos, prendia com um grampo o cabelo. Já levantando-se, disposta a ir e não retornar, esbarrou num senhor que acabava de chegar. Ele era um homem bonito, tinha braços fortes, uma tez corada. Dora receou o olhar, mas ao perceber que tratava-se de um belo homem, não resistiu e o mirou por um instante. O homem, simpático e galanteador, logo apresentou-se à ela.
― Amador, com a sua graça.
Ela, fazendo um gesto tímido com o pescoço, olhou para o salão e, sem fitá-lo, apresentou-se: “Dora, prazer”. Dança aqui faz tempo, ele perguntou. Não, não. Na verdade, hoje é meu último dia. O homem ergueu os braços, gracejou um pouco e logo estavam sentados um ao lado do outro. Dora com sua bolsa e sapatos no colo e o homem balançando a perna direita seguindo o ritmo da música.
― Então a senhora vai mesmo largar as aulas?
― Ah, sim. Isso aqui não é muito pra mim.
Ambos ficaram em silêncio um instante. Aquele silêncio que brota apenas dos corações ainda não conhecidos. O homem sibilou, balançou a cabeça e, com a ingenuidade e charme de um menino, tocou a mão de Dora, que sentiu o peito arrepiar como há mais de cinquenta anos não sentia. O homem levantou-se e, remexendo, foi até o meio do salão. Dora respirou fundo, os lábios tremendo, a mão gelada. Um erotismo fulminante a dominava, algum tipo de beleza fatal, algo nela latejava. Calçou com calma um sapato. Depois o outro. Passou a mão sobre o joelho, a meia-calça um pouco desfiada, e, com seu andar inseguro, foi até o meio do salão, aproximou-se do homem que lhe estendia os braços, jocoso. A música caribenha tocava e ela parecia perdida, sem saber bem o que fazer. 

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

A manicure

Todos os sábados nos enfrentávamos. Ela me olhava com uma amargura inexorável, seus olhos pequenos miravam-me como se quisessem me balear. Sempre que ela me via entrar, contraía os lábios, enrijecia a testa. A dona do salão era uma mulher agradável, tratava as clientes como a amigas. Eu entrava, sentava-me numa cadeira de couro preta e já tirava as sandálias. A dona do salão sabia de cor: Mão e pé, heim? Sim, sim, eu respondia com ar desgastado, um sorriso temeroso. Sabia o que me esperava. A dona do salão a chamava: Depressa para não embirrar a cliente, menina. Ela então vinha com sua maleta e sua cólera dissimulada. Eu procurava esboçar gestos humildes, ser o mais agradável possível, embora evitasse dirigir-lhe muitas palavras. “Hoje está bem quente”, eu dizia. Ela, com uma frieza que beirava à desumanidade, fingia não me ouvir, “Hã?”. O tempo, eu continuava, está quente. Ela era seca. Punha meu pé sobre seus joelhos, as mãos de molho na água. “Sua cutícula é muito fina”, ela dizia, como se eu fosse um rato asqueroso a quem ela tinha repulsa. Seu modo de falar era arrogante, eu percebia pelo gesto que fazia com a boca, sempre fazendo um muxoxo. Ela manuseava o alicate com precisão, era boa em seu oficío. Minhas mãos suavam, os pés gelados oferecidos a ela que parecia querer-me morta. Meu sentimento era quase de submissão. Aquele momento em que ela me tinha ali, disponível até as cutículas, era-me uma verdadeira tortura. Ela me detestava, disso eu sabia, mas vê-la aos meus pés, dava-me medo. E se eu tentasse ser sua amiga? Não, não. Impossível. Ela já havia deixado claro: ergueu aquele muro de tensão e hipocrisia entre nós, duas hipócritas. E se eu mudasse de salão? Resolveria facilmente o meu problema. Jamais teria de vê-la. Não, ela era muito boa em seu ofício. Por sua causa eu tinha unhas belíssimas. E se eu perguntasse qual era o problema dela comigo? Talvez eu tenha dito algo, ou agido, sem perceber, de alguma forma execrável. Mas não. Eu sempre fora cordial, sempre. Subjugá-la também não explicaria seu ódio. Ser manicure lhe era sinônimo de ignomínia?  O fato é que eu não entendia. Enquanto ela fazia minhas unhas, eu me perguntava como ela podia repudiar-me tanto. Com um gesto explícito, ela erguia a mão com o alicate: Vai pintar com qual cor? Eu, que sempre adorei os tons mais fortes, queria a opinião dela, tão importante para mim: O que você sugere?, eu perguntava. E ela, com a mesma frieza, respondia: Vermelho fica bem em você. Eu sorria, tomada por uma alegria quase incontrolável, tinha vontade de beijá-la na boca. Mas logo percebia o modo como me tratava, a distância. Ela me fazia sentir oca. Que direito ela tinha de me aniquilar daquele modo? Ah! Às vezes eu queria espancá-la: Olha aqui, não sou melhor que você tá? E você me deve amizade, tá ouvindo? Delírio meu apenas. Jamais teria coragem de tocar na ferida, de apontar o oculto. Ela terminava seu serviço. Cortava, lixava e pintava as minhas unhas, sempre com perfeição. Eu recolhia os pés, com muito cuidado retirava o dinheiro da carteira. Ela arrumava sua maleta, guardava seus utensílios. Eu voltava para casa, sem esperar dela o que quer que fosse. Na semana seguinte eu voltava. A mesma tensão. O mesmo desespero. Eu nunca tive coragem de lhe perguntar: por que me odeia tanto? A resposta seria difícil demais.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Um assassinato justificado

Nos encontramos por acaso. Ele voou em minha direção, pousou no meu ombro esquerdo e foi tudo que bastou. Desde então, não nos separamos. Eu o adotei como uma espécie de filho, uma outra parte de mim que me encontrou. Nunca dei-lhe um nome. Tentei chamá-lo de João, de Aquiles, de Deus. Mas nenhum nome lhe caía bem, nenhum nome o definia. Então passei a chamá-lo apenas de “meu pequeno”. Ele parecia gostar de ser chamado assim. No meu minúsculo apartamento, dividíamos uma vida da mais íntima amizade, sempre compactuando, nunca fingindo. Ele era um pássaro excessivamente delicado, tinha umas asinhas marrons com uns riscos que brilhavam no escuro, parecendo cristal. Às vezes, durante a madrugada, eu acordava zonza e lá estava ele sobre a janela, asas abertas, refletindo a lua ou  voando ao redor da lâmpada, um menino brincando. Seu bico, ah! tão frágil, eu mal podia sentir quando me beliscava os dedos, era como uma agulhinha me injetando amor. Não parecia ter qualquer força nele, até para amar era suave.

Todas as manhãs íamos para nossa caminhada. Assim que eu acordava, a primeira coisa que via era aquela figura humilde sobre meu peito, bicando no lado esquerdo. Eu sorria, pondo de leve o dedo na sua cabeça marrom. Ele beliscava minha unha e eu queria chorar: nosso primeiro contato era fundido nesta bondade imperfeita, uma pureza a lapidar-se - ou não seria possível? Eu levantava, lavava o rosto com água fria e oferecia-lhe o dedo. Ele aceitava e confiavava-me a responsabilidade de conduzi-lo – sabíamos ambos que era mesmo ele que me conduzia. No bairro, nossa amizade já era conhecida: Lá vai a mãe com seu filhinho, diziam ao ver-nos passar, ele sempre no meu ombro esquerdo, beliscando minha orelha. Não cantava, pobrezinho. Desde a primeira vez, nunca o ouvi. Ensaiei com ele durante algum tempo. Assobiava para que ele imitasse. Em vão. Era mudo. Mudo como um abismo. Mas nem por isso deixava de ser aquela criatura alegre e que alegrava meus dias. Não lembro, de verdade, um único dia em que eu estivesse triste ao seu lado. E, se ficasse, ele roçava suas asas na minha mão, voava dum lado a outro do apartamento, e eu ia junto como se asas nascessem em minhas costas.

Aquela manhã, por qualquer motivo estúpido, ele não me acordara. Abri os olhos com dificuldade e ele não estava diante de mim. Aturdida, a cabeça sonolenta, andei pelo corredor vagueando o olhar. Onde ele estaria? Eu me perguntava aonde teria ido o meu pequeno: Psiu! Meu pequeno, onde você está? Sem vê-lo, andando vagarosamnete pelo curto corredor, senti meu pé esmagar algo. Era ele. Que sensação terrível, meu Deus! E que medo. Senti sua carne macia sendo esmigalhada por meu pé. Gelei. Mal tive coragem de olhar. Havia sangue saindo de seu bico, os olhinhos esbugalhados, seu coraçãozinho saindo pela boca... as asinhas quebradas. Cobri o rosto com as mãos e, como se fora atingida por um veneno, aos poucos ajoelhei-me diante dele. Demorou até eu perceber o que havia acontecido – o que eu havia feito. Como podia ser tão perecível nossa amizade? Bastava uma distração, um não-querer? Meu pé estava imerso no sangue do meu pequeno. Não chorei. Uma opacidade tomou meu coração e fiquei ali estática, as artérias pulsando cheias de terror, ainda em choque. Até que peguei uma sacola plástica, o pus dentro e joguei na lixeira. Eu me senti meio perdida, como antes de conhecê-lo, pior. Eu deveria ser castigada? Deveria, sim. O que fiz foi imperdoável. Havia a culpa. Havia mais o medo, aquela estupidez e eu tão vulnerável. Psiu! Meu pequeno, foi sem querer viu?

No apartamento apertado, meu corpo comprimiu-se. Abri janelas, portas. Hoje coleciono alguns pássaros, todos em gaiolas que aprendi a lição, embora até hoje não consiga entender droga nenhuma do que aconteceu.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Conversa à beira da cama

(baseado num diálogo real)
A menina acordou assustada:
─ Mãe, tive um sonho terrível.
─ É filha? E como foi?
─ Não posso contar. Se eu contar, você vai morrer de medo.

As cidades

Deste mistério que são as cidades, talvez ninguém possa entender.
As cidades são corações blindados, multidões mascaradas.
As pessoas são incapazes de se revelar, escondem-se. Choram em porões.
Maiakovski, o poeta que driblou a anatomia, foi todo um coração.
Matou-se com um tiro.
As cidades são dos sapos, não os de Manuel Bandeira, que morreu pobre.
Sapos obesos fartam-se em lagoas onde afogam seus dólares escamoteados.
Pessoas vulgarizam-se e aplaudem o novo líder do BBB.
Aproveitam uma diversão cruel e dormem com a cosciência em paz.
As cidades, à noite, são ocas, casas ressonam, postes fraquejam.
Mendigos adormecem com a mesma fome de quando nasceram.
Há um medo sobre as cidades, há um interstício perigoso entre um bom dia no ônibus
E um até logo depois do almoço. Trabalha-se para comer, pois as cidades exigem
dinheiro. Mas o homem exaurido tem sede. Bebe do próprio suor.
Eu observo as cidades como uma lebre branca com seus olhos vermelhos:
Inquietação e temor.
Tenho medo dessa grandeza das cidades, elas me parecem vazias e
geladas como a ponta de um iceberg.

domingo, 18 de setembro de 2011

Meia volta


Nunca saberia quando ele me falasse a verdade. Há relações construídas sobre a mentira, sobre a desconfiança, relações que estão sempre por um fio, você olha no olho do outro e vê um embaçamento, um vidro sujo através do qual não se pode ver lá dentro. Assim éramos nós. Por isso naquela tarde saí sem sequer olhar para trás, e André sabia que se eu resistisse a virar-me e olhá-lo era porque não tinha volta. Desci a escada passo a passo repetindo em voz alta: não volto, não suporto mentira! Tomei um taxi, mas juro que não fazia ideia do rumo que queria tomar: vire à esquerda, pode seguir, depois entre à direita, não sei, não sei. O taxista me olhava pelo retrovisor e sua cara tinha uma expressão conturbada, de puro conflito: a senhora tá bem?, perguntou o homem abaixando o som que tocava uma música estridente. Bem eu não estava, tinha vontade de pegar o volante e bater com aquele taxi numa parede, num poste. Acendi um cigarro. “Não pode fumar aqui, moça, desculpa”. Apaguei o cigarro. Entre à esquerda, ordenei tirando da bolsa uma agenda velha que sempre carregava comigo. O taxista entrou numa ruela apertada, esburacada: Aqui é contramão, moça. Então volte. Ele voltou, fez uma manobra lenta e pos o carro noutra direção. Sigo? Siga. O homem, embora tentasse disfarçar, não conseguia parar de olhar-me. Sua tez franzia cada vez que eu o flagrava me olhando. Vire à esquerda agora. Vê aquela lojinha ali, a da esquina? Vire à direita ao passarmos por ela. O taxista parecia ainda mais conturbado, sua testa começava a suar, o taxi não tinha ar condicionado: Não repare, moça, deixa o vidro aberto que o ar entra. Não dei nenhuma importância ao que aquele homem dizia, dei de ombros: tanto faz o ar, senhor. O que me irritava era justamente aquela falta de sentido, dele me deixar daquele jeito sem rumo, sem prumo. Ele quem, moça? Ninguém. E agora, devo seguir?, o homem me inquiriu com o olhar, pondo o braço um pouco para trás e reclinando-se. Agora vire à esquerda, depois vá direto, tem uma ponte mais à frente, certo? Não tem? O homem franziu o sobrolho, deu uma buzinada que me assustou e prosseguiu. Minutos depois, novamente interpelou-me: e agora, moça? Agora o senhor vire aqui na próxima esquina, depois siga. O homem freou abruptamente o carro: desça já do meu taxi. Mas senhor... Ele estava irredutível: desça já, e começou a buzinar, furioso. Recolhi a agenda que havia deixado cair no banco, minha bolsa e, perplexa, desci do taxi. O homem arrastou e eu fiquei ali na esquina de pé. Teria eu o atormentado? Atravessei a rua, fui até um orelhão e disquei o número: André? Sou eu, um taxista me expulsou do taxi, não entendi nada. Pode vir me buscar? André gargalhou do outro lado da linha, minutos depois lá estava ele pra me apanhar. Entrei no carro ereta, meio em choque, me perguntando: será que eu atormentei o taxista? 

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

A florista

Talvez seja exagerado dizer que ganho a vida com flores, mas a verdade é que é delas mesmo que vivo. E sobrevivo – haveria diferença? Se você nunca se comoveu diante da beleza de uma flor, talvez ache pouco importante a minha vida. Tenho vendido flores desde os sete anos, quando minha avó me pegou para criar e nos mudamos para uma casinha rústica ao lado do Mercado. Colho, arrumo e as vendo todos os dias. Aprendi desde cedo a lidar com elas. Flores são fáceis, não guardam segredo, têm impulso para fora, querem sempre se abrir. Fatidicamente murcham, que nada neste mundo é perfeito. Mas são amigas fidelíssimas, de fácil comunicação. Como tenho andado melancólica, estou muito próxima dos lírios, estes amantes tristes. Têm vendido bastante, o pessoal acha “refinado”. Quando fico mais alegre, prefiro as amapolas. Elas são poderosas, ai Deus! me fazem sentir tão feminina que tenho vontade de dançar sem roupa na rua. O Godofredo, meu papagaio e companheiro, prefere as margaridas, meninas de varejo, alegres. Antes de sair de casa, ponho Godofredo no meu ombro. Com um pequeno alicate, corto o talo de uma margarida e a encaixo na orelha esquerda, cobrindo um pouco com o cabelo. Godofredo bica a margarida durante toda a manhã até destruí-la, despetalá-la e eu repô-la com outra. Ele nunca está cabisbaixo, sempre feliz, meu amigo querido alimenta-se de pétalas e pólen. Acho que tem algum tipo de complexo pois certa vez o flagrei batendo asas e bicando um girassol com gestos meio forçados, como se imitasse a leveza dum beija-flor. Pobre Godofredo, ama tanto as flores que é capaz de atuar para conquistá-las.Acho que se um dia eu deixasse de ser florista, ele me abandonaria. É, acho que sim. 

Se me perguntassem, “olha, e se você não pudesse mais ser florista?”. Ah! Minha resposta viria cheia de amargura e medo: eu não morreria, mas ficaria tão triste que seria o mesmo que morrer. Minha vida tem sido esse labor, esse cuidado. Faço disto uma vocação. É, aí está a palavra: tenho vocação para as flores. Através delas vejo que o mundo pode existir numa forma, como disse o poeta, insegura mas que é ao mesmo tempo uma espada prateada erguida pela... pela o que mesmo? Ah! pela vida, sim. Mendigos, até os mendigos entendem o que quero dizer, se outro dia mesmo um me sorriu ao receber de mim uma rosa dramática e tão rubra que o hipnotizou. Você, se não gosta ou mesmo já reparou nas flores, ignore, por favor, o que tenho dito aqui. Uma tarde dessas, quando eu e Godofredo saíamos do Mercado carregados de flores e esperança, um homem com um olho de vidro e uma perna manca me parou. Entendam, se vocês não acreditam na redenção que as flores provocam, não continuem a ler minhas palavras. Este homem me parou e estendeu sua mão grossa, parecia um louco. Devia ser. Ele me atacou, agarrou-me pelo pescoço. Godofredo gritou, bateu com desespero suas grossas asas e foi para cima do homem desta vez com a representação de um gavião. A cesta com as flores caiu, eu logo caí também. O homem me pisoteou, chorou, em seguida gargalhou e foi embora mancando. Eu percebi desde o começo que ele era louco. Estremecida com o susto, as pernas trôpegas, acolhi Godofredo de volta ao ombro – ali era seu porto seguro, meu pobre e corajoso amigo – e recolhi as flores para colocá-las de volta na cesta. Vocês talvez achem bobagem isto que contei, este homem louco que me atacou e estas flores no chão. Não sei bem, quis apenas contar. As flores não foram maculadas, estavam intactas na cesta. Godofredo é que teve um pequeno colapso nervoso, coitadinho, pude ouvir seu delicado coração bater freneticamente. Teve medo de me perder e perder o contato diário com as flores. Foi um susto e tanto. Mas ficamos bem. No dia seguinte, além de suas margaridas, pus na orelha também uma flor do campo deliciosa que ele adorou. Passamos o dia no Mercado como de costume. Sabíamos o que aquilo queria dizer.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Amizade

Todos têm um bichinho de estimação. Mesmo que imaginário, ou apenas em forma explícita de desejo, lá no fundinho do coração existe um bichinho de estimação. Eu tive muitos – bichinhos e corações. Amei tantas espécies: periquito, lebre, peixe de aquário. Mas os cães, estes seres cândidos, sempre estiveram comigo. Ainda menina tive como parceira uma cadelinha cujo nome não lembro. Recordo mesmo é sua forma viva, não abstrata. Éramos feitas uma para a outra. Ela compreendia que eu, mesmo nos dias mais tristes, era capaz de amar. Então vinha para mim, funcinhando meus pés com seu fucinho pequenino, roçando sua cabecinha nos meus dedos, me ensinando que amar é ganho e jamais desistindo de mim. Tínhamos momentos raríssimos de infelicidade. Bichos não conhecem a escuridão, por isso onde quer que estejam há luz. Com ela era assim. Havia ocasiões em que eu a punha no colo, a embalava feito uma criança. Mas nos divertíamos mesmo quando eu deitava no chão e, ao som de seus latidos, gargalhava, entrando em contato com o que de mais primitivo há em mim.
Tê-la sempre fora confortável, eu gostava de acariciar aquela forma una e fiel, capaz de, com seu amor incondicional, proteger-me das armadilhas do mundo. Ao lado dela, eu era uma filha querida, não temia tantas coisas como hoje temo. Vivemos muito em pouco tempo. O tempo, aliás, quando se está feliz, é rarefeito. Saíamos à noite, eu observando o luar e ela, sendo cheirada no rabo pelos cachorrinhos, curtia o erotismo que a natureza lhe deu, sem nenhuma vergonha, nojo ou defesa. Se pudéssemos ser sempre assim, alguém com um bichinho de estimação... A vida seria menos grotesca, as cidades menos fantasmagóricas. Cães vivem suas vidas sem ódio, vivem do óbvio, mas jamais do imoral. São rendição, veja o caso do homem que matou seus inimigos, mas não matou o cachorrinho que, amarrado numa corda, magro e sem mágoa, lhe devotou olhos puros.
No dia em que a cadelinha, como uma fita prestes a se romper, encerrou a brincadeira, a menina entendeu que a morte é pretexto para coisa maior. Ali, mortinha, fria, indefesa... enrolei-a numa toalha branca e a pus numa caixa que atirei no rio. Foi como se ela jamais existisse. Hoje amo outros cães, ela já não faz parte, já não corre quando me vê. Amá-la foi como amar a mim mesma. Muito mais misterioso, foi como amar algo.

As coisas e suas palavras

Só as palavras salvam. Digo com a mais inocente esperança de quem busca nos interstícios alguma dignidade. As coisas parecem tristes, quando na verdade tristes são os olhos de quem as vê. As coisas são preenchíveis, para isto existem tantos verbos, todos conjugáveis. Eu amo, tu amas, amas? Nós amamos, nós queremos, nós precisamos. Coisas são inesgotáveis, basta o sopro das palavras para que elas inflem e se tornem mundos, nos quais cabe todo você. Cabemos nós. Acredito muito na teoria das coisas, na teoria das palavras. Palavras significam, muito mais: criam horizontes. Coisas sem palavras são apenas poeira num rio. Sabemos dizer “eu amo”, mas o que valida o amor é a busca por novas formas de dizer eu amo.  Palavras não cabem em si, levam o mundo nas costas. Livros, dicionários, poemas, são ovos túrgidos de esperança nos quais esperam, pulsantes, as palavras-pintinhos. Por isto amai, amigo, as coisas e suas palavras. O mundo é mudo e triste quando faltam palavras.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Tiro ao alvo

Ele sabia que ela podia magoá-lo, sentia na pele sua fúria quando ficava zangada. Mas sabia também que podia vingar-se. Sim, era mesmo isso que desejava sempre que ela o punha de castigo, ou quando lhe apertava os braços, dava beliscões e lhe enchia de sopapos. Como quando ela ordenou que não atravessasse a rua, ela estava mandando: “Mandando ouviu?”. Ele, no impulso de ser contrário à ordem dela, atravessara e, aos gritos, o coração dando aquele pulo – perdê-lo era fácil -, ela correu e o agarrou pela goela: Menino do cão! Era sempre assim: ela precisando castigá-lo.

Desta vez, porém, ela passara dos limites. Além de gritar, xingar e colocá-lo de castigo, ela o humilhara. Colocá-lo de cara contra a parede era fazê-lo perder qualquer indício de masculinidade, um dia seria um homem e jamais esqueceria disso. Nem de longe um amor edipiano. A odiava em certos momentos. Detestava aquela prepotência dela, aquele jeito de mãe, mulher e adulta, aquelas mãos redondas circunscrevendo suas possibilidades, seu espaço, seu direito de agir: “Coma tudo, mocinho”. E quando ele quisesse ir embora, ela deixaria? Um dia sumiria de propósito só para atormentá-la. Claro. Tinha este trunfo vil e que não prescindiria usar contra ela.

 Naquela tarde, os braços avermelhados, resultado de sua anarquia infantil, as lágrimas escorrendo quentes como só escorrem dos olhos de quem sente ódio, ele jurou: “Ainda me vingo dela”. Lembrando-se então de seu trunfo, escondeu-se no canto mais obscuro da casa, no local onde ela jamais o procuraria, sequer lembraria. Ficou lá por horas. A noite caía quando ela, mãe, mulher e adulta, o procurou. Era hora da janta, a sopa dele iria esfriar: Moleque maldito! Perscrutou por toda a casa, quartos, cozinha, jardim, quintal. Nada do filho. Perguntava a si mesma: “Onde diabos ele se meteu?” – ainda pouco preocupada. Ela buscou na vizinhança, ligou para alguns meninotes da escola, o filho podia ter ido brincar. Sentindo o peito apertar, como uma galinha ao olhar em redor e não ver seus pintinhos, a mulher desesperou-se. Como não tinha asas, encolheu os braços e sentou na cadeira da cozinha. Chorava alto, chamava por seu filhinho. O menino, mais camuflado que uma coruja num buraco, ouviu o choro da mãe. Seu coração que antes era rígido, comprazeu-se com a dor da mãe. Ele cedeu. Apareceu, feito mágica, diante da mulher, que estava pálida de medo – coração de mãe é tão frágil, constatou o menino ao vê-la tão supcetível, exposta como um pássaro ao tiro. Ele a abraçou e, dando-lhe beijinhos na testa, jurou jamais fazer aquilo outra vez. 

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Amor clandestino

Como quem carrega algo secreto, proibido, a menina segurava no colo a caixa de papelão que estava lacrada, mas tinha uns buracos que ela mesma fizera com tesoura para “os bichinhos terem ar”. A viagem era rápida, talvez quinze quilômetros, talvez pouco mais. No entanto, estava escrito na plaquinha ao lado do banco do motorista: PROIBIDO ANIMAIS. SUJEITO A DESCER DO VEÍCULO. A menina leu o aviso com medo, mas seu instinto maternal dava-lhe uma ousadia que como menina apenas não poderia ter. Passou pelo motorista, que a olhou bricando sem saber que aquela menininha de cabelos cacheados e tão baixinha era, na verdade, uma dissimulada  carregando nos braços a caixa proibida. A avó, que era gorda e tão boa quanto uma gata siamesa, sentou-se ao lado dela e pediu que fosse discreta: “Se o motorista nos pega, atira os bichinhos pela janela”. Ela ouviu as palavras da avó com angústia, não poderia perder os filhotes, eram dela, sentia como nunca sentira antes que eles lhe pertenciam e sem eles ficaria tão triste que morreria. “Oh, vovó!”. Uma lágrima escorreu curta pelo canto de um de seus mínimos olhos. Pos a caixa debaixo dos pés, tirou da bolsa uma manta e a cobriu.

O motorista deu a partida, a viagem começou. Pela janela, paisagens campestres, mato, árvores, vento, cheiros. O motorista freou abruptamente. “Meu Deus! Ele descobriu tudo”, pensou a menina, o coração gelado de medo, já temendo perder os filhotes, morrer de tristeza sem eles. Mas era apenas uma aranha que atravessava a pista, tranquila e sutil, sem nenhum ódio ou tédio, como são as aranhas. Sem importar-se com a calamidade humana ela atravessava, seguindo seu caminho, sua rotina. O motorista levou um susto, deu novamente partida no ônibus e emendou a contar seus traumas com aranhas. “Bichos do diabo”, ele dizia, gesticulando e falando alto. Os passageiros pareciam inquietos, conversavam, comiam. A menina era puro medo. Enquanto a avó cochilava, ela vigiava os filhotes, observava o motorista: “Deus queira que ele continue assim distraído”, clamava. 

Quase metade do caminho e a caixa começava a mexer. Latidos finos, contínuos. A menina arrepiou, num desespero súbito pos a mochila sobre a caixa para abafar o som. Em vão. Os filhotes haviam dormido todo o tempo e agora queriam comunicar-se – mesmo os que pouco tempo de vida têm, necessitam deste contato que dar-se de dentro para fora: estariam eles com fome?, perguntou-se a menina. Ela então abriu rapidamente a caixa, sussurrou algo como “xiiii” para que os filhotes ficassem quietos. Em vão. Os latidos ganhavam força, embora finos, eram estridentes. A menina estava agora no ápice de seu desespero, de seu medo, de sua carência. Tão pequena e impotente, nada poderia fazer se o motorista, que no ônibus era a lei, quisesse jogar pela janela os filhotes. “Não, não”, lamentava a pobre menina, nada mais que uma criança. 

De tudo ela tentava. Pos a caixa no colo e tentou embalar os filhotes, talvez voltassem a dormir. Em vão. Ainda latiam. Já em lágrimas, em contato com o mais primitivo dos sofrimentos, ela cutucou a avó. “Acorda,vó, acorda!”. A mulher despertou e, percebendo as lágrimas no rosto da neta e dando-se conta dos latidos dos filhotes, gargalhou: “Calma, querida. Ninguém vai tirar os bichinhos de você”. A menina fez uma expressão meio estática, quase como se não acreditasse que jamais lhe tirariam seus filhotes. Sorriu desconfiada, mas muito alegre e aliviada. A mulher, jocosa como só as avós são, alertou para que a menina pusesse a caixa debaixo dos pés. “Não deixe ninguém ver. Se o motorista escuta, atira os bichinhos pela janela”. A menina assentiu com a cabeça e, abrindo de leve a tampa da caixa, sussurrou para os filhotes que já não latiam, minúsculos, lá dentro: “Xiiiii, meus amores” – mesmo com tanto medo não podia deixar de amá-los e era inevitável não sentir o coração aquecer olhando aqueles miudinhos existirem cheios de esperança naquela caixa. 

A menina pos os pés sobre a caixa, segurando com a mão o lado esquerdo do peito que tamborilava desesperado. Ainda que tivesse de passar por toda aquela angústia, ela não desistiria de proteger o que era seu, aqueles a quem irremediavelmente amava. 





                                                                   

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Presente de casamento


Era como se eu sonhasse. “Natália”, a voz dela me chamava e eu, que não dormira quase nada, ansiosa pelo casamento, a igreja, a festa, a lua de mel – tantas coisas para uma só cabeça pensar – despertei um pouco perdida, as mãos estremecidas: “Fátima? Ah, Fatinha então você me acorda assim?”. Minha voz estava ainda entorpecida, meio rouca, “Pega o hobby pra mim, por favor, Fatinha”. Eu sorri ainda pensando no casamento, os lábios tremendo de vez em quando. Ela sabia que quando eu ficava ansiosa meus lábios tremiam, eu nunca pude esconder. “Parece uma debutante”, ela disse entregando-me o hobby, que deslizou de suas mãos sobre mim, me aquecendo como um abraço.

Espreguicei-me, agora estava de fato acordada. Limpei a remela do olho, o muco do meu nariz, as noites andavam frias, um gelo só. “Vê como fica essa droga de nariz, Fatinha? Pega uma aspirina na gaveta do banheiro pra mim, pega”. Ela, que estava sentada, suas pernas roliças e rosadas cruzadas, o rosto vivo como uma romã – aliás, vivíssimo – levantou-se e pegou a aspirina, que nem mesmo cheguei a tomar. “Me diga, Fatinha, você viu quantos presentes? Mamãe ficou doidinha. Parece que a Dona Amélia me deu uma máquina de fazer chantilly importada, o filho dela trouxe lá dos Estados Unidos. Que diabos vou fazer com isso, me diz”. Fátima levantou-se, os braços cruzados, andando de um lado a outro do quarto, perscrutando, analisando, verificando os porta-retratos, mexendo num objeto aqui, arrumando outro ali. “Seu pai vem?”, perguntou-me, abrindo uma velha caixinha de múscia que ela mesma me dera quando eu tinha sabe-se lá Deus quantos anos, nem tocava mais a musiquinha. “Meu pai? Você sabe como ele é, Fatinha”, respondi, levantando da cama, “Ele disse que não entra em igreja católica de jeito nenhum, depois que virou crente tudo que não seja como é lá na igreja dele é coisa do diabo. Você tinha de ver como ficou quando descobriu que o pai do André é espírita, por pouco não amaldiçoou nosso casamento”. Fátima sorriu, o som de sua risada era tranquilo mas me agitava, me deixava alegre. “Então sua mãe é quem vai entrar com você, certamente”. “Sim, sim”, respondi enquanto abria o cortinado para iluminar o quarto, “Até tingiu o cabelo de loiro, não viu? Ah, você tem de ver, ficou engraçada”. Fátima meneava a cabeça afirmativamente, seus olhos esbugalhados por natureza percorriam o quarto, às vezes vinham em minha direção como se me quisessem. “Ah, Fatinha não me olhe assim”, “Assim como?”, ela perguntou debochando, “Parece que vai me engolir”. Gargalhamos juntas. Eu estava eufórica – esta é a palavra. Tão eufórica que saltitava pelo quarto sem saber bem o que fazer, como se minha alma tivesse se desdobrado, como se eu tocasse tudo ao meu redor dominada por uma alegria que me expandia. “É felicidade”, ela disse, me olhando satisfeita com aqueles braços cruzados.

Eu precisava de um banho, depois arrumar a cara, um pó, um batom, sei lá. “Que cara desprezível, heim Fatinha. Até pareço um espantalho. Assim o André não casa comigo”, brinquei diante do espelho. Fátima aproximou-se de mim, senti um frio ao redor. Olhando-a pelo espelho, eu disse: “Você vai me ver na igreja, não vai? Me criou desde menina, não admito suas vergonhas dessa vez, arre! Já basta no dia do balé, fiquei danada com você, Fatinha. Aquele recital era pra você, fiquei danada”. Fátima ergueu uma das mãos, tocou-me o ombro com tanta delicadeza que quase não pude sentir. Através do espelho ela me olhou, agora parecia pálida, a pele não lembrava em nada uma romã. Os lábios estavam roxos, os cabelos espessos, quase sumindo, um cheiro de flor invadiu o quarto. Com a voz fraca, ela disse: “Eu não posso ir ao seu casamento, Natália, eu tô morta, lembra?”. Era como se eu sonhasse. Não havia explicação a não ser esta. Alguns instantes e ela sequer acenou, foi sumindo, me deixando outra vez e aquele cheiro de flor, de vela, de defunto. Eu estava imóvel, completamente perdida. Era eu ali? Tão frágil. Ela estava morta. Eu ia me casar. Mas não foi sonho. Embora a memória às vezes nos engane, seria uma peça cruel fingir que a vi sem tê-la visto. Não, eu a vi sim, era ela, só que morta. Morta mesmo. Meus lábios estremeceram. Não de ansiedade. De medo.     

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Amadoras

A gente morava num cortiço seboso que a tia da Alzira, com pena de ver a sobrinha tão nova se perder na vida, arrumou pra gente. O quartinho era mais uma pocilga, uma miudeza. A Alzira tinha uma cômoda marrom com uns frascos de perfume em cima e umas presilhas em forma de flor que ela gostava de por no cabelo; num canto, uma esteira de palha que ela forrava com um lençol fino amarelado. A minha roupa eu punha num baú antiquíssimo que já estava lá quando a gente chegou e pra dormir uma rede de corda que o Alceu, compadre da tia da Alzira, deu pra mim. Alzirinha — tinha pavor que eu a chamasse assim, dizia que todo diminutivo é pejorativo: Alzirinha é nome de menina besta, eu vou crescer, vai ver só.


Eu trabalhava na farmácia do seu Lino, uma gentalha das piores, homemzinho doído de ruim aquele. Houve um dia em que mesntruei que parecia mais um riacho, um rio, uma cachoeira rubra me escorrendo entre as pernas. Como não tinha muito dinheiro, pedi que ele me liberasse um medicamento daqueles que a mulher do seu Frank, o americano dono do bar, tomava. Eu mesma vendi pra ela um montão de vezes, o sangue não descia por meses se a mulher quisesse, bastava tomar o medicamento e pronto. Mas o sovina jurou me por pra fora se eu ousasse lhe pedir qualquer favor. E falava cuspindo, a saliva salpicando na cara da gente: 


— Quem já viu negócio desse. É seu Lino me dê remédio pra isso, seu Lino me dê remédio pra aquilo. Mando todo mundo pra puta que pariu, arre!


Seu Lino tinha esse vocabulário chulo, mas não ofendia. Ficou assim cheio de ruindade depois que a mulher fugiu com o representante de remédios de São Paulo, um tipo que tinha as ancas largas, parecia até mulher. Seu Lino ficou trancado em casa um mês inteirinho, a farmácia largada nas minhas mãos, o povo todo comentando. Um dia eu subi, fui levar a correspondência pra ele e, sem bater, abri a porta e lá estava o pobre com um retrato da doidivana na mão chorando feito um menino. 


Alzira, ao contrário de mim, não aguentava as agressões do seu Lino. Foi justamente quando pegou barriga do Frank – sim, o americano – que apareceu lá na farmácia pedindo meu socorro. Tentei disfarçar, pus Alzira pra fora, a gente conversava em casa – aquele quartinho com cheiro de azedo era, sim, nossa casa. Alzira insistiu: Juro que se fizer só dessa vez, nunca mais te peço nada na vida, juro pela minha mãezinha Nossa Senhora do Carmo, juro. Fiz um muxoxo, arre! Alzira sempre vinha com a mesma conversa, pegava barriga e me pedia pra tirar. “E por que foi se deitar justo com o americano, hein?”. Alzira abriu um sorriso cheio de dentes, suspirou feito estas bobocas de novela. O americano tinha um sotaque que ela não resistiu, deixou ele cair de boca, pau e tudo mais. “Se a mulher dele souber, me dá uma surra, Lia. Outro dia mesmo ela quebrou de pancada a Luzia”. “A Luzia?”. “É, não soube? Diz que a coitada tá manca ainda, cheia de dor”. Alzira vivia falando em crescer, ir pra São Paulo e estudar direito. “Era o sonho do meu pai, lembra, Lia? A filha advogada – falava “adevogada”. Sonho uma ova, Alzira! E essa barriga agora? A terceira, Alzirinha, a terceira. “Mas você tira e pronto, Lia.”


Fiz Alzira ir pra casa, à noite conversaríamos. Como das outras vezes, acabei cedendo. Amizade é para isto, afinal: ainda que torta, estamos aí. Alzira tinha o juízo descompensado, fazia muita besteira, mas no fundo era minha grande parceira. E ficou assim depois que o pai morreu, eram muito amigos. Ele sempre a levava pra nadar: “Olha pai, sou um peixinho”, ela fazia o gesto com os lábios pra me mostrar. Quando o câncer o levou, ela ficou desorientada, não me contou, quem me disse certa vez foi a tia dela que no dia do velório ela sumiu, acharam ela um tempão depois encharcada, os pés enrugados. Passou o dia no rio, nadando como um peixe pra ver se o pai voltava.


Arriscando-me, roubei do seu Lino os comprimidos, soro e umas gazes. Pus tudo dentro da minha bolsa e, às seis da tarde, fui embora. Quando cheguei, Alzira agarrou-me pelos braços, encheu-me de beijos e carinhos: “Minha Lia, minha Lia”. Entreguei os comprimidos. Tomou quatro duma vez. No dia seguinte, acordei preparada: a cena se repetia. Alzira sangrava na esteira, contorcendo-se de dor, pedia para morrer. O fino lençol empapado de sangue, uma coisa preta e roxa e vermelha saindo de dentro dela: “Acabou. Tá feito”. Alzira descansou umas horas e, dois dias depois, parecia novinha, virgem. “Essa foi a última vez, tá ouvindo? A última”. Jurei com seriedade para que ela compreendesse de uma vez: não faço mais isso, Alzira, não faço! Alzira pos um batom vermelho, amarrou a blusa no meio da barriga, acompanhou-me até a farmácia e, quando vi, estava ela na esquina de conluio com o americano. Eu estava com tanta raiva que senti vontade de estrangulá-la: “Rapariga! Safada! Puta! Da próxima vez, não tiro, não tiro, tá ouvindo, Alzira?”. Ela, com aqueles olhinhos de vidro que em tudo lembravam os de uma menina que adorava nadar, me encheu de carinhos: Minha Lia, minha Lia. Ela fazia biquinho, imitando um peixe.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Numa pensão ao lado


Mudar é sempre muito cansativo. Carregar móveis, objetos, ter de decorar tudo outra vez, adaptar-se. Havia pouco mais de cinco horas que eu estava na casa nova e uma agonia me consumia, “se eu pudesse voltar pra casa antiga, onde tudo estava já no seu devido lugar”. A vizinhança até parecia agradável, havia crianças brincando nas calçadas, comadres conversando, o carteiro tomando água fresca no bar da esquina, cansado do dia inteiro debaixo de sol. Ao lado da minha nova casa – nova casa, repetia tentando aceitar a ideia – havia uma pensão. Um homem, cujo nome nunca pude lembrar, informou-me assim que desci do caminhão-baú, carregada de caixas, que na pensão ao lado eu poderia fazer as refeições, ficaria muito cansada da mudança para cozinhar e lá era tudo muito em conta, a comida, ele garantia, era de primeira. Assenti e agradeci a simpatia, dando continuidade à mudança sem dar-lhe mais importância.

Passei a tarde arrumando tudo, subindo e descendo escada, pondo um quadro ali, uma cortina aqui. Era quase noite, quando, esgotada, estendi-me no sofá, único móvel da sala que eu havia posto no lugar certo. O cara da TV a cabo só viria na segunda, não tinha o que asssitir, então fiquei ali meio anestesiada, vagueando o olhar pela nova casa, tão estranha, tão indiferente a mim e eu à ela. Enquanto eu repousava preguiçosa, a campainha tocou. Abri meio assustada, afinal não conhecia nem esperava ninguém. Uma mulher alta, quase velha, estava de pé com um sorriso aberto e me convidando para jantar “com todo mundo lá na pensão”. A princípio eu quis recusar, até recuei um pouco:

— Estou tão cansada que nem sinto fome.

Mas a mulher insistiu, me elogiou, cruzou as mãos sobre o peito e me garantiu que eu iria amar a comida dela. Ela era a dona da pensão. Receosa, aceitei. Fomos até a pensão, a mulher na frente, eu a seguindo desconfiada. Quando entramos, havia uma imensa mesa logo na sala de entrada. Pessoas comendo e bebendo, falando alto, rindo. A mulher me apresentou, nem sabia meu nome. “Ana”, eu disse, cumprimentando com cautela a todos. A mulher me pediu que sentasse, ofereceu-me um lugar ao lado duma mocinha braquela, franzina, a cara chupada. Exitei, sem que alguém percebesse, antes de sentar, mas logo me acomodei, embora estivesse desconfortável, minhas mãos sem saber o que tocar, estava em terra estrangeira. Fui servida com fartura, a dona da pensão fizera questão de ela mesma por a comida no meu prato. Trouxe uma cerveja gelada e fez um brinde em minha homenagem. Durante toda a refeição, não houve silêncio. Um homem gordo, que bebeu sete copos de cerveja – não pude deixar de contar – até cantava à mesa e ninguém se incomodava. A dona da pensão gargalhava, parecia uma mulher muito feliz com todos aqueles hóspedes. Eu me sentia enfim à vontade, curiosa por conhecer aquelas pessoas, quem sabe daqui a um tempo eu seria íntima deles, saberia de suas histórias, participaria de suas vidas e elas da minha. Eu seria também uma hóspede. Ah! Aquela esperança de unir-me a todos eles me agradou bastante, relaxei, pus mais cerveja no meu copo e acompanhei a canção que o homem gordo cantava, estava satisfeita com a nova vida, encontrara um lar? Sentia que sim. 

Enquanto eu me regozijava e ficava feliz, uma mulher, de repente, entrou na sala gritando, quebrou uma garrafa e apontou para o rapaz magro sentado à minha frente ameaçando matá-lo. Ele levantou-se e a pegou pelo braço, depois saíram e todos continuaram a comer e a cantar e a beber cerveja como se o imprevisto nunca tivesse acontecido. Fiquei assustada, curiosa e, tocando no ombro da mocinha franzina, a branquelinha sentada ao meu lado, perguntei: Que foi isso? Ela me olhou perdida, pareceu não entender pondo sobre mim aqueles olhinhos ineptos, então repeti a pergunta, sorrindo e bebendo cerveja, mas sua expressão era ainda mais inépta  e eu repetia e repetia sem entender por que ela me ignorava. A dona da pensão, percebendo nosso conflito, alertou-me, irritada: Não vê que ela é surda, heim? A mulher deu um soco na mesa e tudo silenciou, todos ficaram quietos, me olhando. O homem gordo fuzilou-me com o olhar, como se eu me tornasse, de repente, uma assassina. O homem magro grunhiu e pareceu morder-me os pulsos tal era a violência com a qual cerrou os dentes. Fiquei completamente desconcertada, apavorada. Voltei-me para a mocinha e me desculpei, o que só piorou a situação. A dona da pensão levantou-se furiosa: Está debochando dela, cretina? A mocinha parecia assustada, balbuciou sons vibrantes que eram como interrupções, acuou-se e correu a abraçar a dona da pensão que, a essa altura, espumava. Eu, tudo que pude fazer, foi sair correndo dali desamparada. Entrei na minha nova casa e comecei, desesperadamente, a empacotar tudo outra vez. Definitivamente, ali jamais seria o meu lugar.

domingo, 21 de agosto de 2011

Dois e vinte


Andava na calçada, a camisa puída, sapatos foscos como ele mesmo era. Trazia uma pasta debaixo do braço, uma história, uma vida. Ao meu lado, uma mulher de decote exagerado comia salgadinho de milho e bebia coca-cola sem duvidar, seus dentes faziam um barulho violento de devoração – pus a mão no peito com um medo idiota que ela devorasse algo em mim. Enquanto isso eu observava o homem atravessar a rua, vindo distraído, sem qualquer arrogância, com aquele ar de ingenuidade ainda não amadurecida. Ele desviou do guarda que trazia a tiracolo uma arminha inofensiva – não fosse objeto de matar – e, tirando do bolso um bilhete, arreganhou os dentes. Parou diante do portão, o terminal lotado, os ônibus enlouquecidos com a loucura dos homens. O guarda desconfiou sem precisar mesmo de qualquer motivo, deu uns passos e, aproximando-se do homem fosco, interpelou-o. O homem, que era imberbe e por isso tinha a cara exposta, pareceu acuado, o sorriso de quando tirara o bilhete do bolso havia sumido. O guarda o dispensou, sem sequer tocá-lo – acredito que por medo, afinal tocar o desconhecido é despertar a intimidade da qual tanto fugimos, talvez tocar o próprio medo, enfim. O homem relutou, quis entrar no terminal mesmo contra a vontade do guarda. Então começou a confusão, as pessoas voltaram-se para olhar, espiar, caçoar, julgar, acusar, expulsar. Outros homens uniram-se ao guarda, foram para cima do homem fosco. Surraram-no como não fariam a um vira-lata. Mulheres gritavam satisfeitas e crianças pateavam como se estivessem num circo, cuja lona cobre nossas cabeças e encobre algo obscuro. 

O homem foi retirado do terminal sem nem mesmo ter entrado. O guarda, com a prepotência que não lhe é genuína – embora ele insista – gritou, enquanto o homem era levado por outros até o outro lado da rua: A passagem é 2,20, ora! Então eu compreendi. 2,20 é o preço do medo, da prepotência, da anulação, da humilhação, da violência, da ingenuidade, da intimidade – da intimidade? Aquele bilhete que o homem tirara do bolso, a pasta que ele trazia debaixo do braço... ele iria a algum lugar, certamente, mas não o deixaram. Sua camisa estava velha demais, seus sapatos gastos, ele parecia cansado, eu lembro. Por não ter o tostão da passagem, não apenas não chegaria ao seu destino como fora renegado a ele um destino maior e comum: ser. A mulher ao meu lado pareceu satisfeita: Tem muita gente malandra nesse mundo, ela disse olhando-me. Eu, tudo que quis, foi abraçá-la. Fui para cima dela com um amor quase indomável, até lhe dei um beijo no pescoço. Ela não entendeu e desceu do ônibus me chamando de louca.