quinta-feira, 24 de novembro de 2011

A mãe

O menino escondeu-se o mais rápido que pode. Achou um canto escuro, úmido, um cheiro de mijo e medo. Encolheu as pernas e soltou a respiração que vinha prendendo nos pulmões. Por toda a casa o procuravam. Refugiado em seu esconderijo, ele podia ouvir, de longe mas igualmente pujante, a voz da mãe gritando: “Eu mato você, eu mato ouviu?”. Sentia as mãos gelarem, o coração gelando junto, os pés imóveis, os lábios tremendo. E a cabeça que desde cedo doía. Se a mãe o encontrasse, estava perdido. Ela era uma mulher de pouca paciência e incontrolavelmente passional. Quando sentia cólera, seria realmente capaz de matar alguém, inclusive ele, seu próprio filho. O menino fitava ao redor, no curto espaço em que se protegia, era um bicho acuado, seu hálito exalava ainda a bala de hortelã que chupara instantes antes de cometer o crime. Crime? Então poderia ele ser um criminoso à espera de um amargo e terrível castigo? Aprendera desde sempre, na escolda dominical, sobre o perdão. Mas o que conhecia na prática era a dureza dos punhos de sua mãe e a indiferença do pai. Nos dias de surras, enquanto a mãe tinha o cinto à mão, ele recorria ao pai, que o ignorava.

Passaram-se horas, ele desejava que o coração da mãe tivesse abrandado, afinal é como dizem “coração de mãe...”. Porém, ao passo que o tempo passava, a voz dela parecia mais próxima, ele podia quase sentir o cheiro de sua pele grossa e oleosa, o som de seu cabelo quando ela se movia depressa. Então seu coração disparava, o peito dava aquele aperto: não queria morrer, tinha medo, estava assustado, como só ficara no enterro do avô, seu melhor amigo. Sabia que bastava ser pego. Começou a rezar. Acreditava em anjo da guarda, em santo protetor, em espíritos do bem. Fez promessa, jurou entregar a alma a Deus, prometeu nunca mais caçoar da professora, estudaria muito a partir de então, seria o primeiro da turma, não roubaria mais a prova de matemática.   Enquanto, de mãos cruzadas sobre o peito, fazia promessas que jamais iria cumprir, sentiu a mãe aproximar-se. Veio à memória imediatamente a última surra, as marcas da fivela perfeitamente marcada em sua coxa. Houve desespero. O menino afligiu-se de uma forma que suas veias do pescoço incharam. Ele agarrou a própria goela, apertou-a. Sufocado, desistiu. Matar-se não seria melhor que apanhar dela. Deveria haver outro jeito de fugir, escapar. Mas pela proximidade do som daquela voz inconcussa, seria inútil. Ele a sentia perto, tão perto quanto na época em que ela o tinha embalado no colo. Começou a chorar. As lágrimas lhe escorriam pelo rosto, molhando o pescoço, a gola da camisa. Era um choro incontido, com intervenção de alguns soluços interrompidos. Foi quando, ao erguer os olhos, o menino viu diante de si uma cara áspera, de sobrancelhas grossas e franzida de cólera. A mãe então agarrou-o pelos cacheados cabelos, arrastou-o para fora da cama e com uma violência misteriosa estapeou o menino. Sopapos estalaram, as bochechas envermelharam imediatamente, as lágrimas secaram. O menino gritava, pedia perdão com o clamor de quem cometera terrível crime: Não faço mais, dizia gritando. Não adiantava. Ele sabia. Passara por aquilo tantas outras vezes. Mas cada vez era pior, doía mais seu coração, ele tinha menos vontade de perdoar depois. A mãe então o largou, deixou a marca de seus dedos estampados na cara do menino como uma tatuagem em alto relevo. Ele sentiu a cara arder, o nariz escorrendo muco, soluços vindo. Quando ela saiu, ele chorou. Desta vez um choro manso, cheio desamparo. Já não sentia medo. Agora o sentimento era indizível, sentia um gosto de leite amargo na boca. Talvez a odiasse. Num ato de revolta, jurou não perdoá-la: “Mãe não presta, tomara que ela morra”, esbravejou, atirando longe o retrato com a foto dela.

No dia seguinte, durante o café da manhã, ele estava disposto a mostrar o quão magoado estava, queria castigá-la como ela o castigou. “Coma tudo. Não quero ver sobrar nada nesse prato, entendeu?”, disse a mãe, pondo diante dele um prato cheio de mingau. Ele a olhou e quis estapeá-la, estava fervendo de ódio. Mas o modo como ela disse “coma tudo”, foi tão doce que ele se enterneceu e disse: Mãe, eu amo você. E pos uma colher de mingau na boca. 

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