Eram três bailarinas. Estavam postas uma ao lado da outra, objetos sobre a mesa. Luíza entrou na sala agarrada à cintura da mãe, que ouvia atenta as instruções de Dona Estela. O olhar da menina, como uma antena pronta a captar belezas, mirou as bailarinas. Foi amor à primeira vista. Luíza soube, ali, que já não podia não tê-las. Enquanto Dona Estela, mulher esguia e de fala entrecortada, apresentava a casa com seus móveis luxuosos e seus lustres brilhantes, a menina tentava disfarçar o arrebatamento, a paixão que já a dominava. Luíza era desses amores imediatos que por si só não se explicam, amava coisas mínimas e de natureza absolutamente incompreensível, só sabia amar, amar e mesmo amar. Quando viu as três bailarinas sobre a mesa, sentiu o coração anunciar um desejo, os olhos tinham o brilho da esperança, uma bondade claríssima. Ela então ergueu um pouco a mão, sem que a mãe ou Dona Estela percebessem: se pudesse ao menos tocar as bailarinas... Ergueu um pouco mais a mão, quase tocando a pontinha do pé de uma delas, quando a mãe, que apesar de muito pobre valorizava certos princípios, a recriminou: Não toque no que não é seu, disse, afundando os dedos fechados na cabeça da menina. “Não toque no que não é seu”, estas palavras soaram violentas, feriram Luíza. Como não tocá-las? E que história era aquela de “não é seu”? As bailarinas já eram dela, ao menos foi o que seu coração já havia sentenciado, não havia jeito, ela só precisaria de uma oportunidade. Dona Estela então pediu que a mãe de Luíza a acompanhasse até a cozinha, lá estavam todos os utensílios essencias para o trabalho. Luíza esperou que as duas mulheres se afastassem e, embora com muito medo, pegou as três bailarinas, escondeu-as com a barra do vestido e, num susto, já as havia roubado. Sentia-se estranhamente confortada, uma alegria que beirava ao delírio a tomou. Sentou-se numa cadeira, as curtas pernas tremendo, e ficou ali escondendo suas bailarinas, rindo entre um frenezi e outro, imaginando como ficariam lindas na cabeceira de sua cama. Naquele ínterim, Dona Estela apareceu com a mãe de Luíza, as mulheres pareciam satisfeitas. A mãe de Luíza tomou-a pela mão, voltaria no dia seguinte para começar o trabalho.
Ao chegar em casa, Luíza correu para o quarto e soltou a barra do vestido, deixando cair sobre a cama as três bailarinas. Ficou ali um instante meio lúcida, sem a menor culpa ou qualquer sentimento de ignonímia. Estava apenas feliz. Aquela sensação boba e pequenina como se tivesse realizado alguma proeza, como se tivera ela mesma esculpido as bailarinas. Adimirava a delicadeza de que eram feitas, as cores tão delicadas, os traços detalhados, as sapatilhas minúsculas e tão reais. Eram como mágica. Luíza debruçou-se sobre a cama, pos as bailarias em pé e tocou-as, uma a uma. Com o dedo, contornava-as, sentindo um arrepio e uma vontade deliciosa de chorar. Dormiu tranquila.
No dia seguinte, a mãe de Luíza falava ao telefone, a menina a olhava apreensiva, uma sensação de perda dominando-a. Quando a mulher desligou o telefone, tinha o semblante rígido, os dentes trincados: Eu disse pra não tocar no que não é seu! Esbravejando, arrastou Luíza pelo pescoço, levou-a até o quarto e pos as bailarinas numa sacola de plástico. As duas foram até a casa de Dona Estela, que esperava de pé na porta, fazendo-se de ofendida.
A mãe de Luíza pediu todas as desculpas possíveis e jurou que a filha não era desonesta. Dona Estela quis apenas as bailarinas de volta. A mãe de Luíza então deu-lhe um beliscão ardido e sussurrou que ela entregasse as bailarinas. Sentindo que entregava seu prórpio coração estraçalhado, a menina entregou a sacola de plástico em que estavam as bailarinas. Dona Estela conferiu: uma, duas...três, e fechou com dureza a porta. Lágrimas escorreram dos olhos de Luíza, que colocara as mãos no peito verdadeiramente vazio. Sua mãe, indignada, saiu arrastando-a pela rua: nunca toque no que não é seu. Arrasada, Luíza aprendeu a lição. E jamais recuperou o dom que tinha para amar coisas assim.
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