quinta-feira, 31 de maio de 2012

Encontro


Encontrou-a num banquinho de praça, sentada com as mãos sobre os joelhos. Ela vestia uma saia vermelha e uma blusa cor de laranja que apertava-lhe o abdômen, estufando-lhe os seios naturalmente volumosos. Às vezes ela fazia um movimento com a cabeça como se ressonasse, os olhos apertados, parecia cansada. Ele foi-se aproximando aos poucos, chutando pedrinhas no chão e fingindo olhar os carros que passavam na rua. Percebendo que o estranho a cercava, ela acuou-se, encolheu as pernas, apertou contra o peito a bolsa que carregava e disfarçou. Ele sibilou, vagueou o olhar, as mãos tremiam um pouco, não queria assustá-la. Há tanto tempo fazia aquilo, mas sempre era como a primeira vez. Ela, que acabara de chegar à cidade, estava desconfiada, tudo era muito novo, os ares daquele lugar eram muito diferentes, as pessoas muito estranhas e de costumes estranhos também. Estava sentada num banco de praça e tudo que fazia era descansar enquanto tomava consciência da mudança, da nova vida que estava por vir. Então aparece aquele homem que ela não sabia quem era e por que estava tão perto. Tão perto que ela podia sentir sua respiração, o som de seu sapato pisando o chão. Ele começava a demonstrar sinais de nervosismo, o rosto rijo, tentava sorrir, queria olhá-la, olhá-la bem nos olhos, de que cor seriam? Não podia perguntar, seria muito invasivo. Ela estava já quase zonza, a cabeça roc, roc, roc, não parava de se perguntar por que ela, por que naquele banquinho de praça. Fora exatamente como sempre imaginara em seus sonhos de menina: uma árvore verdosa, com folhas exuberantes, uma sombra, um banquinho, crianças ao redor, pedrinhas, ela ali tão feminina e usando batom cor de sangue. Começava a achar a situação aceitável – e repetiu para si mesma, em pensamento “Aceitável”. Sim, seria mesmo aceitável que, ao chegar à nova cidade, encontrasse um sujeito inspirador como aquele e que, juntos, descobrissem as coisas próprias do amor. E tomou um susto ao pensar na palavra amor e em como aquele pensamento mexeu com ela. Num gesto impulsivo, cruzou as pernas lentamente, pos uma mecha de cabelo atrás da orelha e olhou para o chão. Deixou cair a bolsa e, com o coração cheio de esperança, olhou para o lado. Ele então ajoelhou-se, pegou a bolsa e entregou-a com delicadeza. Enquanto ele erguia-se, os rostos foram na mesma direção, encontrando-se. Ela então percebeu que ele era ligeiramente estrábico, mas que havia em seu olhar algo de verdadeiramente desconcertante. Notou que, embora imberbe, havia uma penugem clara em seu queixo. Notou também que seus lábios eram irresistivelmente corados e que tinha uma cicatriz no supercílio esquerdo. Achou que ele tinha um rosto sereno e imaginou como deveria ser mansa a sua voz. Bastou tantas percepções para que ela aceitasse: estava amando, casaria com aquele homem. Ele então pegou a bolsa que ela havia deixado cair, gesto que ela retribuiu com um sorriso afável e, sem querer, deixou escapar o nome: “Rosabela”, disse, inclinando o corpo. O homem, de pé, fez um gracejo, pegou-lhe uma das mãos e, beijando-a levemente, apresentou-se: “Manoel”. Ela não pode deixar de rir. Estava embebida de uma esperançazinha boba, até havia esquecido que acabara de chegar. Sentia-se enraizada àquele lugar, queria ficar, sair, dançar, casar, ter filhos, amar junto àquele homem. Achou-o bonito, atraente. Quis dizer algumas palavras, mas era muito tímida então esperou que ele levasse a conversa. Uns instantes se passaram e ele, antes respirando fundo, disse: “Algodão-doce pra adoçar a vida?”. Ela não entendeu. Desconcertada, sorriu, afinal era o que sabia fazer em momentos de estranheza. O homem repetiu, desta vez, apresentando a ela um algodão-doce azul, depois outro rosa, e um terceiro amarelo: “Algodão doce para adoçar a vida da senhorita”. Levou alguns segundos para que ela compreendesse. Ficou um momento estática, o coração em batidas interrompidas. Com um risinho sem graça, respondeu que não, não queria algodão-doce. O homem entristeceu e ela saiu andando, solitária como sempre fora, chutando pedrinhas no chão.


sexta-feira, 25 de maio de 2012

O atirador de facas

As arquibancadas estavam lotadas. Louise mal podia acreditar: pela primeira vez estava, enfim, num circo, num circo de verdade, daqueles que ela via na televisão, com palhaços, mulher-barbada e malabaristas aloprados. Tudo era encantador. A lona imensa sob sua cabeça era como um céu colorido, as lampadazinhas multicolores como um arco-íris, e o cheirinho da pipoca quentinha invadia-lhe as narinas, despertando-lhe um desejo visceral de mastigar. Comia o docinho comprado pela tia Anita, mulher pequena, cabelos curtos e de coração mole quando o assunto era a sobrinha. As duas estavam sentadas na segunda fila, ao lado de dois meninos gêmeos e um senhor gorducho. Louise era a mais entusiasmada. A toda hora, sem conseguir controlar a emoção, perguntava à tia por isto, ou por aquilo:

― E a mulher barbada, tia?

― Calma, calma. Mais um pouco e ela deve entrar.

Bastou a tia Anita responder-lhe esta apressada pergunta e logo a mulher barbada entrou. Era uma mulher corpulenta, pernas enormes e uma barba marrom gigantesca. Desfilava pelo picadeiro fazendo gestos com as mãos, soltando sorrisos e divertindo a plateia. Louise aplaudia com fervor: “Bravo, bravo!”. Tia Anita se enternecia, os olhos embaçavam só de ver a alegria da sobrinha. Quando a mulher barbada deixou o picadeiro, Louise, que estava de pé, as pernas tremendo de ansiedade pela próxima atração, mais uma vez interrogou a tia:

― E os elefantes? Não tem elefante?

― Não, mas tem o atirador de facas.

― Atirador de facas? Perguntou Louise com uma expressão de espanto, deixando cair o doce que segurava.

― Sim, sim. Um homem que atira facas numa moça sem acertá-la.

Louise pareceu não acreditar. Sentou-se como que abalada.

― Mas como pode isso, tia?

― Podendo ué. É tudo técnica. Ele atira as facas, mas não acerta a moça.

― E se acertar?

― Não acerta, sorriu a tia, é tudo uma questão de técnica.

Enquanto Louise se surpreendia com as palavras da tia, o locutor anunciava a próxima atração que era, justamente, o atirador de facas. Louise tomou um susto ao ouvir e logo fitou o picadeiro com atenção, estava em êxtase, quando viu entrar um homem de roupa preta, segurando pela mão uma jovem mulher que vestia um macacão dourado. Tambores ruflavam, a plateia em silêncio segurando a respiração. O homem então amarrou a jovem numa roda, girou-a e afastou-se, começando a atirar as facas, uma a uma: “Zap”, foi a primeira, que reluziu numa velocidade impressionante diante dos olhos de Louise. “Zap”, foi a segunda. O homem tinha o olhar compenetrado, as mãos firmes. A menina sentiu o coração dar aquele pulo. A cada faca atirada ela sentia-se mais hipnotizada. Contou vinte e uma facas. A última seria lançada e ela já não aguentaria. Cada faca era como um pedacinho de sua aflição. Quando o homem, fazendo mistério, lançou a última faca sob a cabeça da jovem: “Zap!” Louise caiu sobre a arquibancada, quase não acreditando no que vira. Ao fim da apresentação, a plateia ergueu-se, aplausos calorosos ecoaram. Louise bateu lentamente as mãos, perplexa. A paixão brotava-lhe no olhar. 




Quando o espetáculo acabou, a multidão formou uma imensa fila em direção à saída. Tia Anita parecia cansada, embora sorrisse. Louise cutucou-a: “E se ele tivesse acertado a moça?”. “É tudo técnica, eu já disse, meu bem”, respondeu a tia.  A menina fez um gesto com a mão, como se atirasse algo contra o chão. Fitando a tia, disse: “Quando eu crescer, vou atirar facas”. As duas saíram de mãos dadas, tia Anita bocejava enquanto Louise atirava facas imaginárias no chão.