Encontrou-a
num banquinho de praça, sentada com as mãos sobre os joelhos. Ela vestia uma
saia vermelha e uma blusa cor de laranja que apertava-lhe o abdômen,
estufando-lhe os seios naturalmente volumosos. Às vezes ela fazia um movimento
com a cabeça como se ressonasse, os olhos apertados, parecia cansada. Ele
foi-se aproximando aos poucos, chutando pedrinhas no chão e fingindo olhar os
carros que passavam na rua. Percebendo que o estranho a cercava, ela acuou-se,
encolheu as pernas, apertou contra o peito a bolsa que carregava e disfarçou.
Ele sibilou, vagueou o olhar, as mãos tremiam um pouco, não queria assustá-la.
Há tanto tempo fazia aquilo, mas sempre era como a primeira vez. Ela, que
acabara de chegar à cidade, estava desconfiada, tudo era muito novo, os ares
daquele lugar eram muito diferentes, as pessoas muito estranhas e de costumes
estranhos também. Estava sentada num banco de praça e tudo que fazia era
descansar enquanto tomava consciência da mudança, da nova vida que estava por
vir. Então aparece aquele homem que ela não sabia quem era e por que estava tão
perto. Tão perto que ela podia sentir sua respiração, o som de seu sapato
pisando o chão. Ele começava a demonstrar sinais de nervosismo, o rosto rijo,
tentava sorrir, queria olhá-la, olhá-la bem nos olhos, de que cor seriam? Não podia
perguntar, seria muito invasivo. Ela estava já quase zonza, a cabeça roc, roc,
roc, não parava de se perguntar por que ela, por que naquele banquinho de
praça. Fora exatamente como sempre imaginara em seus sonhos de menina: uma
árvore verdosa, com folhas exuberantes, uma sombra, um banquinho, crianças ao
redor, pedrinhas, ela ali tão feminina e usando batom cor de sangue. Começava a
achar a situação aceitável – e repetiu para si mesma, em pensamento
“Aceitável”. Sim, seria mesmo aceitável que, ao chegar à nova cidade,
encontrasse um sujeito inspirador como aquele e que, juntos, descobrissem as
coisas próprias do amor. E tomou um susto ao pensar na palavra amor e em como
aquele pensamento mexeu com ela. Num gesto impulsivo, cruzou as pernas
lentamente, pos uma mecha de cabelo atrás da orelha e olhou para o chão. Deixou
cair a bolsa e, com o coração cheio de esperança, olhou para o lado. Ele então
ajoelhou-se, pegou a bolsa e entregou-a com delicadeza. Enquanto ele erguia-se,
os rostos foram na mesma direção, encontrando-se. Ela então percebeu que ele
era ligeiramente estrábico, mas que havia em seu olhar algo de verdadeiramente
desconcertante. Notou que, embora imberbe, havia uma penugem clara em seu
queixo. Notou também que seus lábios eram irresistivelmente corados e que tinha
uma cicatriz no supercílio esquerdo. Achou que ele tinha um rosto sereno e
imaginou como deveria ser mansa a sua voz. Bastou tantas percepções para que
ela aceitasse: estava amando, casaria com aquele homem. Ele então pegou a bolsa
que ela havia deixado cair, gesto que ela retribuiu com um sorriso afável e, sem
querer, deixou escapar o nome: “Rosabela”, disse, inclinando o corpo. O homem,
de pé, fez um gracejo, pegou-lhe uma das mãos e, beijando-a levemente,
apresentou-se: “Manoel”. Ela não pode deixar de rir. Estava embebida de uma
esperançazinha boba, até havia esquecido que acabara de chegar. Sentia-se
enraizada àquele lugar, queria ficar, sair, dançar, casar, ter filhos, amar
junto àquele homem. Achou-o bonito, atraente. Quis dizer algumas palavras, mas
era muito tímida então esperou que ele levasse a conversa. Uns instantes se
passaram e ele, antes respirando fundo, disse: “Algodão-doce pra adoçar a vida?”.
Ela não entendeu. Desconcertada, sorriu, afinal era o que sabia fazer em
momentos de estranheza. O homem repetiu, desta vez, apresentando a ela um
algodão-doce azul, depois outro rosa, e um terceiro amarelo: “Algodão doce para
adoçar a vida da senhorita”. Levou alguns segundos para que ela compreendesse.
Ficou um momento estática, o coração em batidas interrompidas. Com um risinho
sem graça, respondeu que não, não queria algodão-doce. O homem entristeceu e ela
saiu andando, solitária como sempre fora, chutando pedrinhas no chão.
quinta-feira, 31 de maio de 2012
sexta-feira, 25 de maio de 2012
O atirador de facas
As
arquibancadas estavam lotadas. Louise mal podia acreditar: pela primeira vez
estava, enfim, num circo, num circo de verdade, daqueles que ela via na
televisão, com palhaços, mulher-barbada e malabaristas aloprados. Tudo era
encantador. A lona imensa sob sua cabeça era como um céu colorido, as
lampadazinhas multicolores como um arco-íris, e o cheirinho da pipoca quentinha
invadia-lhe as narinas, despertando-lhe um desejo visceral de mastigar. Comia o
docinho comprado pela tia Anita, mulher pequena, cabelos curtos e de coração
mole quando o assunto era a sobrinha. As duas estavam sentadas na segunda fila,
ao lado de dois meninos gêmeos e um senhor gorducho. Louise era a mais
entusiasmada. A toda hora, sem conseguir controlar a emoção, perguntava à tia
por isto, ou por aquilo:
―
E a mulher barbada, tia?
―
Calma, calma. Mais um pouco e ela deve entrar.
Bastou
a tia Anita responder-lhe esta apressada pergunta e logo a mulher barbada
entrou. Era uma mulher corpulenta, pernas enormes e uma barba marrom
gigantesca. Desfilava pelo picadeiro fazendo gestos com as mãos, soltando
sorrisos e divertindo a plateia. Louise aplaudia com fervor: “Bravo, bravo!”. Tia
Anita se enternecia, os olhos embaçavam só de ver a alegria da sobrinha. Quando
a mulher barbada deixou o picadeiro, Louise, que estava de pé, as pernas
tremendo de ansiedade pela próxima atração, mais uma vez interrogou a tia:
―
E os elefantes? Não tem elefante?
―
Não, mas tem o atirador de facas.
―
Atirador de facas? Perguntou Louise com uma expressão de espanto, deixando cair
o doce que segurava.
―
Sim, sim. Um homem que atira facas numa moça sem acertá-la.
Louise
pareceu não acreditar. Sentou-se como que abalada.
―
Mas como pode isso, tia?
―
Podendo ué. É tudo técnica. Ele atira as facas, mas não acerta a moça.
―
E se acertar?
―
Não acerta, sorriu a tia, é tudo uma questão de técnica.
Enquanto
Louise se surpreendia com as palavras da tia, o locutor anunciava a próxima
atração que era, justamente, o atirador de facas. Louise tomou um susto ao
ouvir e logo fitou o picadeiro com atenção, estava em êxtase, quando viu entrar
um homem de roupa preta, segurando pela mão uma jovem mulher que vestia um
macacão dourado. Tambores ruflavam, a plateia em silêncio segurando a
respiração. O homem então amarrou a jovem numa roda, girou-a e afastou-se,
começando a atirar as facas, uma a uma: “Zap”, foi a primeira, que reluziu numa
velocidade impressionante diante dos olhos de Louise. “Zap”, foi a segunda. O
homem tinha o olhar compenetrado, as mãos firmes. A menina sentiu o coração dar
aquele pulo. A cada faca atirada ela sentia-se mais hipnotizada. Contou vinte e
uma facas. A última seria lançada e ela já não aguentaria. Cada faca era como
um pedacinho de sua aflição. Quando o homem, fazendo mistério, lançou a última
faca sob a cabeça da jovem: “Zap!” Louise caiu sobre a arquibancada, quase não
acreditando no que vira. Ao fim da apresentação, a plateia ergueu-se, aplausos calorosos
ecoaram. Louise bateu lentamente as mãos, perplexa. A paixão brotava-lhe no olhar.
Quando
o espetáculo acabou, a multidão formou uma imensa fila em direção à saída. Tia
Anita parecia cansada, embora sorrisse. Louise cutucou-a: “E se ele tivesse
acertado a moça?”. “É tudo técnica, eu já disse, meu bem”, respondeu a tia. A menina fez um gesto com a mão, como se
atirasse algo contra o chão. Fitando a tia, disse: “Quando eu crescer, vou
atirar facas”. As duas saíram de mãos dadas, tia Anita bocejava enquanto Louise
atirava facas imaginárias no chão.
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