As
arquibancadas estavam lotadas. Louise mal podia acreditar: pela primeira vez
estava, enfim, num circo, num circo de verdade, daqueles que ela via na
televisão, com palhaços, mulher-barbada e malabaristas aloprados. Tudo era
encantador. A lona imensa sob sua cabeça era como um céu colorido, as
lampadazinhas multicolores como um arco-íris, e o cheirinho da pipoca quentinha
invadia-lhe as narinas, despertando-lhe um desejo visceral de mastigar. Comia o
docinho comprado pela tia Anita, mulher pequena, cabelos curtos e de coração
mole quando o assunto era a sobrinha. As duas estavam sentadas na segunda fila,
ao lado de dois meninos gêmeos e um senhor gorducho. Louise era a mais
entusiasmada. A toda hora, sem conseguir controlar a emoção, perguntava à tia
por isto, ou por aquilo:
―
E a mulher barbada, tia?
―
Calma, calma. Mais um pouco e ela deve entrar.
Bastou
a tia Anita responder-lhe esta apressada pergunta e logo a mulher barbada
entrou. Era uma mulher corpulenta, pernas enormes e uma barba marrom
gigantesca. Desfilava pelo picadeiro fazendo gestos com as mãos, soltando
sorrisos e divertindo a plateia. Louise aplaudia com fervor: “Bravo, bravo!”. Tia
Anita se enternecia, os olhos embaçavam só de ver a alegria da sobrinha. Quando
a mulher barbada deixou o picadeiro, Louise, que estava de pé, as pernas
tremendo de ansiedade pela próxima atração, mais uma vez interrogou a tia:
―
E os elefantes? Não tem elefante?
―
Não, mas tem o atirador de facas.
―
Atirador de facas? Perguntou Louise com uma expressão de espanto, deixando cair
o doce que segurava.
―
Sim, sim. Um homem que atira facas numa moça sem acertá-la.
Louise
pareceu não acreditar. Sentou-se como que abalada.
―
Mas como pode isso, tia?
―
Podendo ué. É tudo técnica. Ele atira as facas, mas não acerta a moça.
―
E se acertar?
―
Não acerta, sorriu a tia, é tudo uma questão de técnica.
Enquanto
Louise se surpreendia com as palavras da tia, o locutor anunciava a próxima
atração que era, justamente, o atirador de facas. Louise tomou um susto ao
ouvir e logo fitou o picadeiro com atenção, estava em êxtase, quando viu entrar
um homem de roupa preta, segurando pela mão uma jovem mulher que vestia um
macacão dourado. Tambores ruflavam, a plateia em silêncio segurando a
respiração. O homem então amarrou a jovem numa roda, girou-a e afastou-se,
começando a atirar as facas, uma a uma: “Zap”, foi a primeira, que reluziu numa
velocidade impressionante diante dos olhos de Louise. “Zap”, foi a segunda. O
homem tinha o olhar compenetrado, as mãos firmes. A menina sentiu o coração dar
aquele pulo. A cada faca atirada ela sentia-se mais hipnotizada. Contou vinte e
uma facas. A última seria lançada e ela já não aguentaria. Cada faca era como
um pedacinho de sua aflição. Quando o homem, fazendo mistério, lançou a última
faca sob a cabeça da jovem: “Zap!” Louise caiu sobre a arquibancada, quase não
acreditando no que vira. Ao fim da apresentação, a plateia ergueu-se, aplausos calorosos
ecoaram. Louise bateu lentamente as mãos, perplexa. A paixão brotava-lhe no olhar.
Quando
o espetáculo acabou, a multidão formou uma imensa fila em direção à saída. Tia
Anita parecia cansada, embora sorrisse. Louise cutucou-a: “E se ele tivesse
acertado a moça?”. “É tudo técnica, eu já disse, meu bem”, respondeu a tia. A menina fez um gesto com a mão, como se
atirasse algo contra o chão. Fitando a tia, disse: “Quando eu crescer, vou
atirar facas”. As duas saíram de mãos dadas, tia Anita bocejava enquanto Louise
atirava facas imaginárias no chão.

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