O
sol estava nascendo, as gotas da chuva noturna ainda pingavam no parapeito da
janela, quando Edite levantou. Foi maravilhosa a forma como ergueu os braços
para espreguiçar-se. Sentia uma alegria diferente, a manhã estava especialmente
agradável, aquele prometia ser um dia esplêndido. Vestia um pijama de algodão
todo bordado de pequenas margaridas, o cabelo preso à altura da nuca, o olho um
pouco remelado. Na cama, deitado preguiçosamente, estava Thor, o gato de
estimação. O bichano dormia, a respiração tranquila fazia com que a gorducha
barriga subisse e descesse lentamente. Edite fez-lhe um carinho de leve e foi
até o banheiro lavar-se. Ao olhar no espelho, não conteve o riso: era um dia
especial. 7 de abril. Trinta anos. Ou seriam trinta e um? Não importava. Abriu
o armário e retirou um vestido colorido, passou a escova no cabelo e sentou-se
na cama. Tranquilamente fechou os olhos e pode ouvir sons quase imperceptíveis
ao seu redor: a respiração vagarosa de Thor, as gotas batendo no parapeito da
janela, o vento que entrava suave, fazendo as cortinas esvoaçarem como folhas.
Respirou fundo, estava indecisa. Não sabia se descia logo ou esperava mais um
pouco. Será que deveria dar mais um tempo arrumando-se? Movia os pés, tremia as
pernas, impaciente. Ah! como era um dia especial. Desceu lentamente as escadas,
não queria fazer barulho. Na sala, balões coloridos amarrados com barbante aos
móveis, flores, almofadas novas. Edite andou até uma poltrona coberta por uma
manta vermelha, sua cor favorita. Uma homenagem magnífica, pensou, sentando-se
na poltrona e pondo o rosto sobre a manta que era macia como um colo de mãe.
Viu as janelas abertas, uma luz alaranjada invadia a casa, os primeiros raios
de sol. Edite não resistiu e levantou-se, debruçou-se sobre uma das janelas e
admirou por um instante a rua ainda vazia. Foi então até a cozinha. A mesa
estava linda como nunca: pão, queijos, suco e um bolo coberto com glacê
amarelo, tudo como ela gostava. Pos o dedo na borda do bolo e lambeu, num gesto
que a fez lembrar-se da infância, de quando a
mãe fazia-lhe banquetes de aniversário. Sem que tivesse tempo de perceber, o
olho encheu d’água, o coração deu aquele arrepio. Andou pela cozinha dando
passos leves, não queria estragar a surpresa. Assustou-se ao ver Thor entrar:
“Xiiiii”, fez um gesto pedindo silêncio ao gato, que deitou-se ao pé da mesa. Edite
sentia-se contente, estava verdadeiramente alegre. Puxou uma cadeira e
sentou-se. Pegou então uma vela branca e pos no centro do bolo. Riscou o
fósforo. Com delicadeza colocou um guardanapo no colo. Mirou a chama da vela e
soprou-a. “Parabéns pra mim”, ela disse, acariciando com o pé o gato que
ressonava ao pé da mesa. E tomou café da manhã sozinha.
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