segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Amadoras

A gente morava num cortiço seboso que a tia da Alzira, com pena de ver a sobrinha tão nova se perder na vida, arrumou pra gente. O quartinho era mais uma pocilga, uma miudeza. A Alzira tinha uma cômoda marrom com uns frascos de perfume em cima e umas presilhas em forma de flor que ela gostava de por no cabelo; num canto, uma esteira de palha que ela forrava com um lençol fino amarelado. A minha roupa eu punha num baú antiquíssimo que já estava lá quando a gente chegou e pra dormir uma rede de corda que o Alceu, compadre da tia da Alzira, deu pra mim. Alzirinha — tinha pavor que eu a chamasse assim, dizia que todo diminutivo é pejorativo: Alzirinha é nome de menina besta, eu vou crescer, vai ver só.


Eu trabalhava na farmácia do seu Lino, uma gentalha das piores, homemzinho doído de ruim aquele. Houve um dia em que mesntruei que parecia mais um riacho, um rio, uma cachoeira rubra me escorrendo entre as pernas. Como não tinha muito dinheiro, pedi que ele me liberasse um medicamento daqueles que a mulher do seu Frank, o americano dono do bar, tomava. Eu mesma vendi pra ela um montão de vezes, o sangue não descia por meses se a mulher quisesse, bastava tomar o medicamento e pronto. Mas o sovina jurou me por pra fora se eu ousasse lhe pedir qualquer favor. E falava cuspindo, a saliva salpicando na cara da gente: 


— Quem já viu negócio desse. É seu Lino me dê remédio pra isso, seu Lino me dê remédio pra aquilo. Mando todo mundo pra puta que pariu, arre!


Seu Lino tinha esse vocabulário chulo, mas não ofendia. Ficou assim cheio de ruindade depois que a mulher fugiu com o representante de remédios de São Paulo, um tipo que tinha as ancas largas, parecia até mulher. Seu Lino ficou trancado em casa um mês inteirinho, a farmácia largada nas minhas mãos, o povo todo comentando. Um dia eu subi, fui levar a correspondência pra ele e, sem bater, abri a porta e lá estava o pobre com um retrato da doidivana na mão chorando feito um menino. 


Alzira, ao contrário de mim, não aguentava as agressões do seu Lino. Foi justamente quando pegou barriga do Frank – sim, o americano – que apareceu lá na farmácia pedindo meu socorro. Tentei disfarçar, pus Alzira pra fora, a gente conversava em casa – aquele quartinho com cheiro de azedo era, sim, nossa casa. Alzira insistiu: Juro que se fizer só dessa vez, nunca mais te peço nada na vida, juro pela minha mãezinha Nossa Senhora do Carmo, juro. Fiz um muxoxo, arre! Alzira sempre vinha com a mesma conversa, pegava barriga e me pedia pra tirar. “E por que foi se deitar justo com o americano, hein?”. Alzira abriu um sorriso cheio de dentes, suspirou feito estas bobocas de novela. O americano tinha um sotaque que ela não resistiu, deixou ele cair de boca, pau e tudo mais. “Se a mulher dele souber, me dá uma surra, Lia. Outro dia mesmo ela quebrou de pancada a Luzia”. “A Luzia?”. “É, não soube? Diz que a coitada tá manca ainda, cheia de dor”. Alzira vivia falando em crescer, ir pra São Paulo e estudar direito. “Era o sonho do meu pai, lembra, Lia? A filha advogada – falava “adevogada”. Sonho uma ova, Alzira! E essa barriga agora? A terceira, Alzirinha, a terceira. “Mas você tira e pronto, Lia.”


Fiz Alzira ir pra casa, à noite conversaríamos. Como das outras vezes, acabei cedendo. Amizade é para isto, afinal: ainda que torta, estamos aí. Alzira tinha o juízo descompensado, fazia muita besteira, mas no fundo era minha grande parceira. E ficou assim depois que o pai morreu, eram muito amigos. Ele sempre a levava pra nadar: “Olha pai, sou um peixinho”, ela fazia o gesto com os lábios pra me mostrar. Quando o câncer o levou, ela ficou desorientada, não me contou, quem me disse certa vez foi a tia dela que no dia do velório ela sumiu, acharam ela um tempão depois encharcada, os pés enrugados. Passou o dia no rio, nadando como um peixe pra ver se o pai voltava.


Arriscando-me, roubei do seu Lino os comprimidos, soro e umas gazes. Pus tudo dentro da minha bolsa e, às seis da tarde, fui embora. Quando cheguei, Alzira agarrou-me pelos braços, encheu-me de beijos e carinhos: “Minha Lia, minha Lia”. Entreguei os comprimidos. Tomou quatro duma vez. No dia seguinte, acordei preparada: a cena se repetia. Alzira sangrava na esteira, contorcendo-se de dor, pedia para morrer. O fino lençol empapado de sangue, uma coisa preta e roxa e vermelha saindo de dentro dela: “Acabou. Tá feito”. Alzira descansou umas horas e, dois dias depois, parecia novinha, virgem. “Essa foi a última vez, tá ouvindo? A última”. Jurei com seriedade para que ela compreendesse de uma vez: não faço mais isso, Alzira, não faço! Alzira pos um batom vermelho, amarrou a blusa no meio da barriga, acompanhou-me até a farmácia e, quando vi, estava ela na esquina de conluio com o americano. Eu estava com tanta raiva que senti vontade de estrangulá-la: “Rapariga! Safada! Puta! Da próxima vez, não tiro, não tiro, tá ouvindo, Alzira?”. Ela, com aqueles olhinhos de vidro que em tudo lembravam os de uma menina que adorava nadar, me encheu de carinhos: Minha Lia, minha Lia. Ela fazia biquinho, imitando um peixe.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Numa pensão ao lado


Mudar é sempre muito cansativo. Carregar móveis, objetos, ter de decorar tudo outra vez, adaptar-se. Havia pouco mais de cinco horas que eu estava na casa nova e uma agonia me consumia, “se eu pudesse voltar pra casa antiga, onde tudo estava já no seu devido lugar”. A vizinhança até parecia agradável, havia crianças brincando nas calçadas, comadres conversando, o carteiro tomando água fresca no bar da esquina, cansado do dia inteiro debaixo de sol. Ao lado da minha nova casa – nova casa, repetia tentando aceitar a ideia – havia uma pensão. Um homem, cujo nome nunca pude lembrar, informou-me assim que desci do caminhão-baú, carregada de caixas, que na pensão ao lado eu poderia fazer as refeições, ficaria muito cansada da mudança para cozinhar e lá era tudo muito em conta, a comida, ele garantia, era de primeira. Assenti e agradeci a simpatia, dando continuidade à mudança sem dar-lhe mais importância.

Passei a tarde arrumando tudo, subindo e descendo escada, pondo um quadro ali, uma cortina aqui. Era quase noite, quando, esgotada, estendi-me no sofá, único móvel da sala que eu havia posto no lugar certo. O cara da TV a cabo só viria na segunda, não tinha o que asssitir, então fiquei ali meio anestesiada, vagueando o olhar pela nova casa, tão estranha, tão indiferente a mim e eu à ela. Enquanto eu repousava preguiçosa, a campainha tocou. Abri meio assustada, afinal não conhecia nem esperava ninguém. Uma mulher alta, quase velha, estava de pé com um sorriso aberto e me convidando para jantar “com todo mundo lá na pensão”. A princípio eu quis recusar, até recuei um pouco:

— Estou tão cansada que nem sinto fome.

Mas a mulher insistiu, me elogiou, cruzou as mãos sobre o peito e me garantiu que eu iria amar a comida dela. Ela era a dona da pensão. Receosa, aceitei. Fomos até a pensão, a mulher na frente, eu a seguindo desconfiada. Quando entramos, havia uma imensa mesa logo na sala de entrada. Pessoas comendo e bebendo, falando alto, rindo. A mulher me apresentou, nem sabia meu nome. “Ana”, eu disse, cumprimentando com cautela a todos. A mulher me pediu que sentasse, ofereceu-me um lugar ao lado duma mocinha braquela, franzina, a cara chupada. Exitei, sem que alguém percebesse, antes de sentar, mas logo me acomodei, embora estivesse desconfortável, minhas mãos sem saber o que tocar, estava em terra estrangeira. Fui servida com fartura, a dona da pensão fizera questão de ela mesma por a comida no meu prato. Trouxe uma cerveja gelada e fez um brinde em minha homenagem. Durante toda a refeição, não houve silêncio. Um homem gordo, que bebeu sete copos de cerveja – não pude deixar de contar – até cantava à mesa e ninguém se incomodava. A dona da pensão gargalhava, parecia uma mulher muito feliz com todos aqueles hóspedes. Eu me sentia enfim à vontade, curiosa por conhecer aquelas pessoas, quem sabe daqui a um tempo eu seria íntima deles, saberia de suas histórias, participaria de suas vidas e elas da minha. Eu seria também uma hóspede. Ah! Aquela esperança de unir-me a todos eles me agradou bastante, relaxei, pus mais cerveja no meu copo e acompanhei a canção que o homem gordo cantava, estava satisfeita com a nova vida, encontrara um lar? Sentia que sim. 

Enquanto eu me regozijava e ficava feliz, uma mulher, de repente, entrou na sala gritando, quebrou uma garrafa e apontou para o rapaz magro sentado à minha frente ameaçando matá-lo. Ele levantou-se e a pegou pelo braço, depois saíram e todos continuaram a comer e a cantar e a beber cerveja como se o imprevisto nunca tivesse acontecido. Fiquei assustada, curiosa e, tocando no ombro da mocinha franzina, a branquelinha sentada ao meu lado, perguntei: Que foi isso? Ela me olhou perdida, pareceu não entender pondo sobre mim aqueles olhinhos ineptos, então repeti a pergunta, sorrindo e bebendo cerveja, mas sua expressão era ainda mais inépta  e eu repetia e repetia sem entender por que ela me ignorava. A dona da pensão, percebendo nosso conflito, alertou-me, irritada: Não vê que ela é surda, heim? A mulher deu um soco na mesa e tudo silenciou, todos ficaram quietos, me olhando. O homem gordo fuzilou-me com o olhar, como se eu me tornasse, de repente, uma assassina. O homem magro grunhiu e pareceu morder-me os pulsos tal era a violência com a qual cerrou os dentes. Fiquei completamente desconcertada, apavorada. Voltei-me para a mocinha e me desculpei, o que só piorou a situação. A dona da pensão levantou-se furiosa: Está debochando dela, cretina? A mocinha parecia assustada, balbuciou sons vibrantes que eram como interrupções, acuou-se e correu a abraçar a dona da pensão que, a essa altura, espumava. Eu, tudo que pude fazer, foi sair correndo dali desamparada. Entrei na minha nova casa e comecei, desesperadamente, a empacotar tudo outra vez. Definitivamente, ali jamais seria o meu lugar.

domingo, 21 de agosto de 2011

Dois e vinte


Andava na calçada, a camisa puída, sapatos foscos como ele mesmo era. Trazia uma pasta debaixo do braço, uma história, uma vida. Ao meu lado, uma mulher de decote exagerado comia salgadinho de milho e bebia coca-cola sem duvidar, seus dentes faziam um barulho violento de devoração – pus a mão no peito com um medo idiota que ela devorasse algo em mim. Enquanto isso eu observava o homem atravessar a rua, vindo distraído, sem qualquer arrogância, com aquele ar de ingenuidade ainda não amadurecida. Ele desviou do guarda que trazia a tiracolo uma arminha inofensiva – não fosse objeto de matar – e, tirando do bolso um bilhete, arreganhou os dentes. Parou diante do portão, o terminal lotado, os ônibus enlouquecidos com a loucura dos homens. O guarda desconfiou sem precisar mesmo de qualquer motivo, deu uns passos e, aproximando-se do homem fosco, interpelou-o. O homem, que era imberbe e por isso tinha a cara exposta, pareceu acuado, o sorriso de quando tirara o bilhete do bolso havia sumido. O guarda o dispensou, sem sequer tocá-lo – acredito que por medo, afinal tocar o desconhecido é despertar a intimidade da qual tanto fugimos, talvez tocar o próprio medo, enfim. O homem relutou, quis entrar no terminal mesmo contra a vontade do guarda. Então começou a confusão, as pessoas voltaram-se para olhar, espiar, caçoar, julgar, acusar, expulsar. Outros homens uniram-se ao guarda, foram para cima do homem fosco. Surraram-no como não fariam a um vira-lata. Mulheres gritavam satisfeitas e crianças pateavam como se estivessem num circo, cuja lona cobre nossas cabeças e encobre algo obscuro. 

O homem foi retirado do terminal sem nem mesmo ter entrado. O guarda, com a prepotência que não lhe é genuína – embora ele insista – gritou, enquanto o homem era levado por outros até o outro lado da rua: A passagem é 2,20, ora! Então eu compreendi. 2,20 é o preço do medo, da prepotência, da anulação, da humilhação, da violência, da ingenuidade, da intimidade – da intimidade? Aquele bilhete que o homem tirara do bolso, a pasta que ele trazia debaixo do braço... ele iria a algum lugar, certamente, mas não o deixaram. Sua camisa estava velha demais, seus sapatos gastos, ele parecia cansado, eu lembro. Por não ter o tostão da passagem, não apenas não chegaria ao seu destino como fora renegado a ele um destino maior e comum: ser. A mulher ao meu lado pareceu satisfeita: Tem muita gente malandra nesse mundo, ela disse olhando-me. Eu, tudo que quis, foi abraçá-la. Fui para cima dela com um amor quase indomável, até lhe dei um beijo no pescoço. Ela não entendeu e desceu do ônibus me chamando de louca.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Synopsis


Como quem se perde no tempo, eu escrevo.
Como quem se busca, eu escrevo.
Como quem se acha, eu escrevo.
Como quem não entende, eu escrevo.
Como quem se ilude, eu escrevo.
Como quem ama, eu escrevo.
Como quem chora, eu escrevo.
Como quem se repete, largo a caneta e vou dormir.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Just Happy


Diante do espelho buscava uma referência de sonho. Seus olhos eram os mesmos, castanhos e ligeiramente estrábicos, mas maquilados acendiam feito estrelas; os lábios finos ganhavam volume e tornavam-se rubros, infantilmente desejáveis. As mãos que de rústicas só tinham o formato, sempre leves no tato, eram encobertas com luvas negras, o braço hirsuto mascarado com uma pele extra-delicada, seda superficial. Cílios postiços, cabelos loiros falsos e pó rosado nas bochechas para dar aquele tom suave, não feminil o bastante para enganá-lo. Era uma máscara? Ele sabia que sim, mas era uma máscara que pertencia aos outros, não a ele que nascera para ser feliz. Os pés planavam sobre saltos que de tão altos o transportavam a uma realidade de sentido, de existência. Nascido Ismael da Cruz, a noite – ou a vida – dava-lhe o nome de Amanda Garbot. Dançava numa boate na última esquina da Rua de Baixo, ganhando quarenta reais por hora dançada, fora gorjetas. Quando subia ao palco, sentia-se como um sol cujo calor consome para dentro e estoura chispas que espocam violentas no ar. Andou tendo uns sustos, os brutamontes do beco viviam lhe roubando os cigarros e lhe provocando humilhações imperdoáveis, não fosse por seu coração tão paciente e maduro. Sabia que a intolerância é o medo do homem, embora não o justifique. Sabia também que a felicidade não consiste na revolta, e sim na certeza de agir conforme seu desejo mais profundo e verdadeiro. Ser feliz é não conter-se. Deu um jeito nos brutamontes mudando o caminho, já não andava pelo beco, fazia desvio pela rua de trás. Escondia-se? Não. Evitava a violência do rancor, do aborrecimento, do impulso de revidar, chorar. Sorria triste ao lembrar-se dos brutamontes que poderiam ser seus amantes, amigos, comparsas na alegria. Não chorava muito, apesar das lágrimas guardadas. Achava-se lindo, lindo como nenhum outro e isto bastava. Era amor-próprio, descobriu sem precisar fazer comparações. Amava-se e nisto justificava quem era. Gostava de ser, aparecer, que o mundo o visse tal qual uma jóia viva que rebrilha faça sol ou chuva. Quando tinha medo, desfazia a maquilagem, tirava a peruca, descia dos saltos. Mas a imagem que via diante do espelho era a mesma: uns olhos meio estrábicos e um sorriso de flerte com a vida. Não havia disfarce. Queria ser feliz, e sabia como.

Moça debaixo da cama


Das irmãs era a mais medrosa, a caçula. Herdara do pai a tendência à depressão, a mania de acuar-se, o medo. Tinha a personalidade frágil, sempre muito esquiva e desconfiada. Naquele dia jurou: Não saio daqui nem arrastada. De tudo se tentou. Primeiro a irmã mais velha entrou no quarto, palavreou, recitou versinhos. Em vão. O quarto cheio de rendinhas e aromas – que ela era a mais feminina das três – estava oco, os objetos perplexos. A irmã tentava retirar o lençol, acariciava-a, mas logo desistiu. 

Em seguida, a irmã do meio, sempre impaciente e alheia. Tinha dívidas e um filho que morava no Rio de Janeiro. A vida é assim, mulher, dizia, enquanto recostava-se na janela para olhar o quintal, é coisa de Deus. Vê o meu Alfredo, fosse ele bem capaz de eu nem ficar sabendo, ele nunca liga e, se liga, só a cobrar, pode? Atéparece indigente, vai saber. Tá ouvindo, mulher?

Veio então o marido, homem cujo melhor recurso era o amor pacencioso e isento. Quis levantar o lençol, ei, princesa - como a chamava desde o primeiro encontro - ei, princesa. Mas sua princesa cobria-se num véu branco quase anímico, como se pretendesse desaparecer. Levantou um pouco o lençol, quase viu o rosto da mulher, que  impediu-o com um urro de fera, seu grito de mãe, coisa irrefutável: Me deixem! E deixaram-na. Puseram-se todos os parentes em frente à porta do quarto, diziam entender, é natural, embora não devesse ser. O marido achou melhor que todos saíssem. Quando percebeu estar sozinha, a mulher, como um bicho acuado saindo da toca, ergueu-se e saiu do lençol em que se protegera, a redoma de linho e choro na qual se havia refugiado, sua trincheira de dor inefável. Um mundo bizarro parecia apresentar-se. Não estava em seu quarto, em sua casa, em sua cama. Estava num limbo, numa espécie de meio fio. Aos poucos levantou-se, andou cambaleante até a janela. Pos-se a olhar a velha pinheira, lugar onde o filho eternamente em sua infância brincou. A mulher sentia ardências, como se em suas veias escorrecem sucos ácidos, como se cigarras atrelasem-lhe as patas no estômago, dando-lhe choques. Olhou com olhos amarelados, olhos que transfixavam o tempo com mágoa e amor, a velha pinheira: Morreria se perdesse um filho. Deu-se conta então, com susto e terror, que perdera o filho, seu filho. Lembrou-se do único momento em sua vida que não tivera resquício sequer de medo: o parto. Agora ela precisava acuar-se, retirar-se como um tatu-bola, que à mínima ameaça torna-se, ele só, um universo impermeável. Correu para debaixo da cama, fez igualzinho o pai nos dias de trovoada. Cobriu-se com o lençol e jurou não sair dali jamais. Era medrosa e perder um filho era coisa que nunca poderia suportar.

domingo, 7 de agosto de 2011

Sem endereço


O menino bateu à minha porta às duas horas da tarde. Eu almoçava sem ter fome, estava cansada e com medo de abrir. Quem me visitaria àquela hora? Quem lembraria de mim ali tão disfarçada? Eu cujo endereço sempre fora a solidão. Eructei para dentro, pousei o prato e fui abrir. Diante de mim, o menino segurava sacolas plásticas. “Ah, sim!”, era o mercadinho, “Entre”, eu disse sem que ele me compreendesse, afinal eu falava cheia de medo como uma menina imatura a quem arrancaram as meias na noite gelada e cujos pés ficaram nus, susceptíveis. Eu repeti que ele entrasse. O menino assentiu com a cabeça, tirou as sandálias com uma humildade que me constrangeu. Entrou pisando levemente no tapete velho e esperou que eu o coordenasse. Ordenei que pusesse as sacolas na mesa, mas não esperasse gorjeta. Era sábado, eu estava feia, triste e de mau humor. Ele não pareceu indignado, ao contrário, calçou as sandálias surradas e retirou-se, antes me desejando uma boa tarde. Fechei a porta com dureza, o punho dolorido daquela humildade tão plácida, aquele menino tão generoso em seu amor. Eu fui tão rude, praticamente o expulsei da minha casa, sempre escondida atrás de minhas paredes. Poderia tê-lo convidado para almoçar, seria lindo comer em sua companhia, falaríamos ambos de nossas vidas, eu contaria a ele como fui feliz na minha viagem a São Paulo, ele me diria como era bacana sua vida de entregador. Eu o deixaria beber quanta limonada quisesse, havia litros na minha geladeira. Poderia lhe contar do sonho que tive ontem, deixaria que ele tocasse meu cabelo, que me fizesse cócegas, eu estava precisando rir e ele seria minha via de escape, meu subterfúgio. Visitaríamos o coração um do outro. Ah! Seria mesmo uma alegria tê-lo como amigo, tê-lo ao meu lado como um confidente. Juro que seria capaz de revelar a ele meus mais profundos segredos, não haveria máscaras. Mas eu não o convidei e por isso fechei a porta. Meu coração oxidado não poderia amá-lo. Ele se foi sem sequer me dizer um nome, apenas aquele sincero boa tarde que me iludiu, encheu meu peito de uma coisa meio perigosa, a esperança. Conferi as sacolas que ele deixara sobre a mesa, havia um vidro de azeitonas, um quilo de sal e doze potes de manteiga. O que eu faria com tanta manteiga? Só uma desculpa para o menino ter de entregar minhas compras, uma mentira meio boba. Sentei para terminar meu almoço. Como todos os sábados, eu estava feia e comia sem fome.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Orfandade


Há em nós uma animalidade primitiva. Não temos pedigree, eructamos, falamos palavrão. Somos filhos de um homem e de uma mulher que amam seus corpos, mas temem o castigo. Somos tristes. Mas somos alegres também. Temos ódio, fazemos guerra com os outros e com nós mesmos, nos atacamos e destruimos a todo instante. Mas amamos. Morremos sem o amor. Os poetas existem para nos consolar e enlouquecem em sua solidão, morrem pobres e desiludidos. Somos egoístas, não conseguimos viver sós. Queremos ir ao cinema, comer cachorro-quente, brincar de pique-esconde no shopping para não ter de perceber o moleque que dorme na esquina, não come cachorro-quente e ainda por cima nos rouba. Nos rouba à noite, no escuro. Escamoteia nossa cosciência. Mas o funk da moda e as celebridades nas capas de revista nos projetam e dormimos à noite, ainda que com medo que o moleque apareça e nos perturbe. Nos tire a paz. Mal sabemos que o moleque somos nós, ele é nosso medo rejeitado, nossa orfandade abafada. Eu vejo o moleque na praça, na esquina, na estrada, ele me olha e me fuzila, sem piedade. Ele quer ser visto, mas continuamos cegos.

Frases...

“A violência prostra a alma, pois fomos feitos para o amor”.

“O Brasil só será um país desenvolvido, quando as escolas se comprometerem a  despertar nos jovens o amor pelo livro”.


"A beleza transfixa a alma".

"Escrever é uma espécie de mágica: tudo que você toca vira palavra".

Bilhete


Deixou um bilhete sobre a mesa. Há quem se despede com um telefonema, deixando uma carta ou simplesmente indo sem dizer palavra alguma. Mas ela deixou um bilhete, um bilhete que continha apenas a seguinte frase: Adeus e seja feliz. E por favor não me ligue. Uma ironia este “seja feliz” – ela sabia da falta de amor próprio dele, da incapacidade dele ser feliz sem ajuda. Havia seis meses estavam juntos. Quando ele leu o bilhete, sabia que ela tinha toda razão de fugir, ele mesmo reconheceu o erro. Tomou uma cerveja quente e sentou no sofá. Na televisão, uma mulher de cabelos oxigenados dava selinhos e ele ria sem vontade, olhando a mão ainda machucada, mão que ele próprio quase decepou. Ela não voltaria, ele tinha certeza. Mas havia esperança, a esperança que suplanta a certeza, as possibilidades, o óbvio. Ela não voltaria, repetia para si mesmo, embora cada lágrima que lhe caía dos olhos dissesse: ela volta. Ele pegou o telefone, tremeu um pouco, teve vergonha. E se eu ligar? Ligaria? Não teve coragem, voltou para o sofá e releu o bilhete, pronunciando com medo no coração cada palavra, cada sílaba. Talvez se ele jurasse... Pegou novamente o telefone e ligou. Do outro lado da linha, a voz dela pareceu inflexível, disse com todas as letras que não voltaria, suas palavras eram como flechas cheias de amargura. Mesmo assim ele jurou: nunca mais tentaria acabar com a própria vida. Foi bobagem, ele estava atormentado, com medo, algo assim. A amava. Ela era seu estado de alegria, podia salvá-lo. Ele falava desesperado. Então houve um instante de silêncio, ambos calados. Ela desligou sem qualquer resquício de piedade. Não ficaria com um homem que tentara se matar.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Dia


Era meio-dia. Hora quente e inconstante em que o sol queima estômagos e só pensamos em banho, ver novela e não ler aquele livro – ou numa salvação mais real. “Se houvesse uma cachoeira no meu quintal”, disse a prima pousando o prato raso sobre a janela. O cachorro esperava a muxiba e nos olhava com olhos fraternos como se dissesse “amo todas vocês”. Parecia mesmo amar, ou iludia-se apenas em sua condição de bicho sem cosciência. Mamãe limpava as panelas com força, suava no vestido de alça, os seios pendurados fazendo um balanço que expressava um aconchego irresistível. “Toc, toc, toc”, ela batia a colher no prato, lá ia o cachorro comer os restos, todo bobo e ela numa gentileza de mulher boa, aquela paciência meio sofrida. A prima parecia triste e eu comia quieta para disfarçar. “Tem sal pra botar?”, ela perguntou me olhando com suas pupilas embaçadas, como se clamasse. Enfiei o garfo na boca e apontei para a viga que se rachava: Papai ficou de consertar. “É, ficou”, ela respondeu, e foi como se se dispersasse. Retirou-se, tomou um banho. Banho frio. Recostou-se na janela, o cabelo pingando, a nuca geladinha, fresca. Começou a chorar observando mamãe que brincava com o cachorro “inhoc, inhoc, inhoc”, ele correndo tosco, desnorteado, dum lado a outro da cozinha em rompantes extravagantes de alegria gratuita, afinal os cães não devem nada a ninguém e não têm a cabeça a prêmio como nós. A prima pegou um copo com água e, sem disfarçar, perguntou a mim que comia como uma porca sem entender: “Como pode um cachorro ser mais feliz do que eu?”. Pousei o prato sobre a mesa. Houve silêncio. Era quase uma da tarde.