A gente morava num cortiço seboso que a tia da Alzira, com pena de ver a sobrinha tão nova se perder na vida, arrumou pra gente. O quartinho era mais uma pocilga, uma miudeza. A Alzira tinha uma cômoda marrom com uns frascos de perfume em cima e umas presilhas em forma de flor que ela gostava de por no cabelo; num canto, uma esteira de palha que ela forrava com um lençol fino amarelado. A minha roupa eu punha num baú antiquíssimo que já estava lá quando a gente chegou e pra dormir uma rede de corda que o Alceu, compadre da tia da Alzira, deu pra mim. Alzirinha — tinha pavor que eu a chamasse assim, dizia que todo diminutivo é pejorativo: Alzirinha é nome de menina besta, eu vou crescer, vai ver só.
Eu trabalhava na farmácia do seu Lino, uma gentalha das piores, homemzinho doído de ruim aquele. Houve um dia em que mesntruei que parecia mais um riacho, um rio, uma cachoeira rubra me escorrendo entre as pernas. Como não tinha muito dinheiro, pedi que ele me liberasse um medicamento daqueles que a mulher do seu Frank, o americano dono do bar, tomava. Eu mesma vendi pra ela um montão de vezes, o sangue não descia por meses se a mulher quisesse, bastava tomar o medicamento e pronto. Mas o sovina jurou me por pra fora se eu ousasse lhe pedir qualquer favor. E falava cuspindo, a saliva salpicando na cara da gente:
— Quem já viu negócio desse. É seu Lino me dê remédio pra isso, seu Lino me dê remédio pra aquilo. Mando todo mundo pra puta que pariu, arre!
Seu Lino tinha esse vocabulário chulo, mas não ofendia. Ficou assim cheio de ruindade depois que a mulher fugiu com o representante de remédios de São Paulo, um tipo que tinha as ancas largas, parecia até mulher. Seu Lino ficou trancado em casa um mês inteirinho, a farmácia largada nas minhas mãos, o povo todo comentando. Um dia eu subi, fui levar a correspondência pra ele e, sem bater, abri a porta e lá estava o pobre com um retrato da doidivana na mão chorando feito um menino.
Alzira, ao contrário de mim, não aguentava as agressões do seu Lino. Foi justamente quando pegou barriga do Frank – sim, o americano – que apareceu lá na farmácia pedindo meu socorro. Tentei disfarçar, pus Alzira pra fora, a gente conversava em casa – aquele quartinho com cheiro de azedo era, sim, nossa casa. Alzira insistiu: Juro que se fizer só dessa vez, nunca mais te peço nada na vida, juro pela minha mãezinha Nossa Senhora do Carmo, juro. Fiz um muxoxo, arre! Alzira sempre vinha com a mesma conversa, pegava barriga e me pedia pra tirar. “E por que foi se deitar justo com o americano, hein?”. Alzira abriu um sorriso cheio de dentes, suspirou feito estas bobocas de novela. O americano tinha um sotaque que ela não resistiu, deixou ele cair de boca, pau e tudo mais. “Se a mulher dele souber, me dá uma surra, Lia. Outro dia mesmo ela quebrou de pancada a Luzia”. “A Luzia?”. “É, não soube? Diz que a coitada tá manca ainda, cheia de dor”. Alzira vivia falando em crescer, ir pra São Paulo e estudar direito. “Era o sonho do meu pai, lembra, Lia? A filha advogada – falava “adevogada”. Sonho uma ova, Alzira! E essa barriga agora? A terceira, Alzirinha, a terceira. “Mas você tira e pronto, Lia.”
Fiz Alzira ir pra casa, à noite conversaríamos. Como das outras vezes, acabei cedendo. Amizade é para isto, afinal: ainda que torta, estamos aí. Alzira tinha o juízo descompensado, fazia muita besteira, mas no fundo era minha grande parceira. E ficou assim depois que o pai morreu, eram muito amigos. Ele sempre a levava pra nadar: “Olha pai, sou um peixinho”, ela fazia o gesto com os lábios pra me mostrar. Quando o câncer o levou, ela ficou desorientada, não me contou, quem me disse certa vez foi a tia dela que no dia do velório ela sumiu, acharam ela um tempão depois encharcada, os pés enrugados. Passou o dia no rio, nadando como um peixe pra ver se o pai voltava.
Arriscando-me, roubei do seu Lino os comprimidos, soro e umas gazes. Pus tudo dentro da minha bolsa e, às seis da tarde, fui embora. Quando cheguei, Alzira agarrou-me pelos braços, encheu-me de beijos e carinhos: “Minha Lia, minha Lia”. Entreguei os comprimidos. Tomou quatro duma vez. No dia seguinte, acordei preparada: a cena se repetia. Alzira sangrava na esteira, contorcendo-se de dor, pedia para morrer. O fino lençol empapado de sangue, uma coisa preta e roxa e vermelha saindo de dentro dela: “Acabou. Tá feito”. Alzira descansou umas horas e, dois dias depois, parecia novinha, virgem. “Essa foi a última vez, tá ouvindo? A última”. Jurei com seriedade para que ela compreendesse de uma vez: não faço mais isso, Alzira, não faço! Alzira pos um batom vermelho, amarrou a blusa no meio da barriga, acompanhou-me até a farmácia e, quando vi, estava ela na esquina de conluio com o americano. Eu estava com tanta raiva que senti vontade de estrangulá-la: “Rapariga! Safada! Puta! Da próxima vez, não tiro, não tiro, tá ouvindo, Alzira?”. Ela, com aqueles olhinhos de vidro que em tudo lembravam os de uma menina que adorava nadar, me encheu de carinhos: Minha Lia, minha Lia. Ela fazia biquinho, imitando um peixe.