Deixou um bilhete sobre a mesa. Há quem se despede com um telefonema, deixando uma carta ou simplesmente indo sem dizer palavra alguma. Mas ela deixou um bilhete, um bilhete que continha apenas a seguinte frase: Adeus e seja feliz. E por favor não me ligue. Uma ironia este “seja feliz” – ela sabia da falta de amor próprio dele, da incapacidade dele ser feliz sem ajuda. Havia seis meses estavam juntos. Quando ele leu o bilhete, sabia que ela tinha toda razão de fugir, ele mesmo reconheceu o erro. Tomou uma cerveja quente e sentou no sofá. Na televisão, uma mulher de cabelos oxigenados dava selinhos e ele ria sem vontade, olhando a mão ainda machucada, mão que ele próprio quase decepou. Ela não voltaria, ele tinha certeza. Mas havia esperança, a esperança que suplanta a certeza, as possibilidades, o óbvio. Ela não voltaria, repetia para si mesmo, embora cada lágrima que lhe caía dos olhos dissesse: ela volta. Ele pegou o telefone, tremeu um pouco, teve vergonha. E se eu ligar? Ligaria? Não teve coragem, voltou para o sofá e releu o bilhete, pronunciando com medo no coração cada palavra, cada sílaba. Talvez se ele jurasse... Pegou novamente o telefone e ligou. Do outro lado da linha, a voz dela pareceu inflexível, disse com todas as letras que não voltaria, suas palavras eram como flechas cheias de amargura. Mesmo assim ele jurou: nunca mais tentaria acabar com a própria vida. Foi bobagem, ele estava atormentado, com medo, algo assim. A amava. Ela era seu estado de alegria, podia salvá-lo. Ele falava desesperado. Então houve um instante de silêncio, ambos calados. Ela desligou sem qualquer resquício de piedade. Não ficaria com um homem que tentara se matar.
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