Há em nós uma animalidade primitiva. Não temos pedigree, eructamos, falamos palavrão. Somos filhos de um homem e de uma mulher que amam seus corpos, mas temem o castigo. Somos tristes. Mas somos alegres também. Temos ódio, fazemos guerra com os outros e com nós mesmos, nos atacamos e destruimos a todo instante. Mas amamos. Morremos sem o amor. Os poetas existem para nos consolar e enlouquecem em sua solidão, morrem pobres e desiludidos. Somos egoístas, não conseguimos viver sós. Queremos ir ao cinema, comer cachorro-quente, brincar de pique-esconde no shopping para não ter de perceber o moleque que dorme na esquina, não come cachorro-quente e ainda por cima nos rouba. Nos rouba à noite, no escuro. Escamoteia nossa cosciência. Mas o funk da moda e as celebridades nas capas de revista nos projetam e dormimos à noite, ainda que com medo que o moleque apareça e nos perturbe. Nos tire a paz. Mal sabemos que o moleque somos nós, ele é nosso medo rejeitado, nossa orfandade abafada. Eu vejo o moleque na praça, na esquina, na estrada, ele me olha e me fuzila, sem piedade. Ele quer ser visto, mas continuamos cegos.
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