Das irmãs era a mais medrosa, a caçula. Herdara do pai a tendência à depressão, a mania de acuar-se, o medo. Tinha a personalidade frágil, sempre muito esquiva e desconfiada. Naquele dia jurou: Não saio daqui nem arrastada. De tudo se tentou. Primeiro a irmã mais velha entrou no quarto, palavreou, recitou versinhos. Em vão. O quarto cheio de rendinhas e aromas – que ela era a mais feminina das três – estava oco, os objetos perplexos. A irmã tentava retirar o lençol, acariciava-a, mas logo desistiu.
Em seguida, a irmã do meio, sempre impaciente e alheia. Tinha dívidas e um filho que morava no Rio de Janeiro. A vida é assim, mulher, dizia, enquanto recostava-se na janela para olhar o quintal, é coisa de Deus. Vê o meu Alfredo, fosse ele bem capaz de eu nem ficar sabendo, ele nunca liga e, se liga, só a cobrar, pode? Atéparece indigente, vai saber. Tá ouvindo, mulher?
Veio então o marido, homem cujo melhor recurso era o amor pacencioso e isento. Quis levantar o lençol, ei, princesa - como a chamava desde o primeiro encontro - ei, princesa. Mas sua princesa cobria-se num véu branco quase anímico, como se pretendesse desaparecer. Levantou um pouco o lençol, quase viu o rosto da mulher, que impediu-o com um urro de fera, seu grito de mãe, coisa irrefutável: Me deixem! E deixaram-na. Puseram-se todos os parentes em frente à porta do quarto, diziam entender, é natural, embora não devesse ser. O marido achou melhor que todos saíssem. Quando percebeu estar sozinha, a mulher, como um bicho acuado saindo da toca, ergueu-se e saiu do lençol em que se protegera, a redoma de linho e choro na qual se havia refugiado, sua trincheira de dor inefável. Um mundo bizarro parecia apresentar-se. Não estava em seu quarto, em sua casa, em sua cama. Estava num limbo, numa espécie de meio fio. Aos poucos levantou-se, andou cambaleante até a janela. Pos-se a olhar a velha pinheira, lugar onde o filho eternamente em sua infância brincou. A mulher sentia ardências, como se em suas veias escorrecem sucos ácidos, como se cigarras atrelasem-lhe as patas no estômago, dando-lhe choques. Olhou com olhos amarelados, olhos que transfixavam o tempo com mágoa e amor, a velha pinheira: Morreria se perdesse um filho. Deu-se conta então, com susto e terror, que perdera o filho, seu filho. Lembrou-se do único momento em sua vida que não tivera resquício sequer de medo: o parto. Agora ela precisava acuar-se, retirar-se como um tatu-bola, que à mínima ameaça torna-se, ele só, um universo impermeável. Correu para debaixo da cama, fez igualzinho o pai nos dias de trovoada. Cobriu-se com o lençol e jurou não sair dali jamais. Era medrosa e perder um filho era coisa que nunca poderia suportar.
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