segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Começando com Adélia...


Ter um blog é uma novidade pra mim. Aliás, muita novidade. E como assusta. Mas depois de muito pensar, resovi relaxar e fazer deste espaço um lugar para eu compartilhar coisas que me tocam, me emocionam, me revoltam, me alegram, me frustram... enfim, compartilhar experiências. Então, decidi começar com uma das coisas que mais me fascinam: a poesia de Adélia Prado. Uma mineira de cabelos branquinhos, pele enrugada, em tudo lembrando as nossas vovózinhas. Mas não se enganem. Esta mulher de aparência singela é uma poetisa das grandes. Seus poemas vão no fundo de nossas almas, invadem nossas memórias mais íntimas. Poemas que têm um gostinho de infância, falam do cotidiano, da vida prosaica que cabe a todos nós. Sempre choro lendo seus poemas, aliás é impossível não se comover, não render-se à força de sua poesia, à pulsação vital de suas palavras e ideias. O poema que ponho abaixo é um dos que mais me tocam. Fico sem palavras, sem reação, sempre que o leio. Adélia tem esse poder: nos cala tamanha é a beleza de sua obra. No mais, é ler Adélia...

O Amor no Éter

Há dentro de mim uma paisagem
entre meio-dia e duas horas da tarde.
Aves pernaltas, os bicos
mergulhados na água,
entram e não neste lugar de memória,
uma lagoa rasa com caniço na margem.
Habito nele, quando os desejos do corpo,
a metafísica, exclamam:
como és bonito!
Quero escrever-te até encontrar
onde segregas tanto sentimento.
Pensas em mim, teu meio-riso secreto
atravessa mar e montanha,
me sobressalta em arrepios,
o amor sobre o natural.
O corpo é leve como a alma,
os minerais voam como borboletas.
Tudo deste lugar
entre meio-dia e duas horas da tarde.

                             
                             Adélia Prado


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